sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Fri on a bar riga
De onde estava avistava uma planície bastante vasta, sem quase nada que a vista atrapalhasse, detinha uma observação geral do terreno e da rua.
Observava os miseráveis cortando as esquinas carregando suas quinquilharias.
Aproximou-se do parapeito até onde sua vertigem suportava, encostando de leve o abdómen na pedra gelada.
O contato intensificou a atmosfera de frio na barriga.
O que o fez recuar.
Antes do que seria capaz de ficar.
Agora, como herdeiro do imóvel terá que colocar ordem na bagunça e imundice.
Deixar pronto para alugar em três meses; no máximo.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
éb rinca de ira
Homens que entram para o ramo da construção, é brincadeira
O esconde esconde da polícia e ladrão, é brincadeira
O Governo luta pelos interesses do cidadão, é brincadeira
O ópio do povo é o futebol e a religião, é brincadeira
A ONU admite o Brasil em constante evolução, é brincadeira
O OMO é a marca mais vendida de sabão, é brincadeira
A América do Sul está bem ao lado do Japão, é brincadeira
Todo arte é tão nutritiva quanto o feijão, é brincadeira
Res pira Ção daal ma
sábado, 13 de junho de 2009
Trin Tae do isdi as
Não tratava-se de nem um tipo de fobia, destas que o sujeito sente-se inseguro e deslocado em ambientes abertos, nem tampouco a ultrapassada síndrome do pânico, nada disso. Apenas foi ficando em casa, e agora espantado, notava sua ausência física no mundo. Física porque continuava vivendo, fazia as compras de alimentos, material de limpeza e todo o resto através da internet, conversava com parentes e amigos via MSN e telefone; não sentia-se só.
Seu mirrado dinheiro provinha de microinvestimentos na bolsa de valores que também eram administrados pelo computador. Metade do tempo dormia, quase não comia e pensava demais; talvez por isso não notara o tempo passar. Também sonhava demais, mas nunca lembrava-se ao acordar.
Sentia sim falta de uma namorada, mas nada que o atormentasse muito, ademais mantinha relações virtuais com inúmeras mulheres em todos os cantos do país, só não do mundo pois não falava outras línguas.
O frio nos últimos dias era intenso, não gostava de sentir-se gelado, o frio deixava-o tenso; mais um motivo para não sair, na verdade, aparentemente o único motivo para não sair, pois não encontrava outro que justificasse sua reclusão.
Por fim, resolveu que deveria sair, como aconselhava seus amigos, arejar, espairecer, caminhar, ver gente ao vivo, observar os transeuntes relacionarem -se, relacionar-se com os transeuntes, levar a vida, ver o trânsito, enfim, sentir-se fazendo parte da sociedade.
Foi o que fez. Na manhã do 33° dia em casa, deixou a clausura e saiu. Caminhou todo o dia e após voltar para casa de noite sentia-se extasiado e feliz. Dormiu.
Um mês depois, ao mudar a folha do calendário notou que já eram trinta e dois os dias que não saía de casa.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Pá gina
O que faz começar a escrita?
Qual o impulso? o pulso...
De que material o vazio é preenchido?
de tudo o que pode ser imaginado, pensado e concebido,
entendido?
ou algo que ainda se revelará,
na próxima linha, ou
na entrelinha.
Depois que começa pode continuar
fluida, ininterrupta, jorrante,
saindo pelas bordas;
mas também pode,
assim sem mais, cessar,
e assim, ser a última
palavra
da
página.
E, neste caso, a própria página.
Dom un do
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
U mjog ado r
Eis uma realidade! Eis o que pode significar, às vezes, o derradeiro florim! E o que aconteceria, se eu naquele momento tivesse perdido a confiança, se não me atrevesse a decidir-me?"...
Um jogador - Fiódor Dostoiévski
domingo, 14 de setembro de 2008
An fiar tro se
Suas articulações, momentaneamente, fizeram-se de movimentos reduzidos, uma mobilidade incompleta, o que poderia chamar-se de anfiartrose. Sentia sua circulação, cada uma das veias que trazem o sangue de todas as partes do corpo ao coração.
O quase silêncio só não era inteiro porque era cortado pelo som do galinheiro distante não mais que cem metros da janela fechada, e por isso, o cacarejar chegava mais abafado. Olhando com mais cuidado para o batente da janela, um molusco, pertencente à terceira classe do reino animal, desloca-se de forma imperceptível encerrado em sua concha. Seu faro deu o sinal, estabeleceu o indício. Um completo partista. É o que diz em pensamento. Auto-pensamento. Outro ruído deixou de não existir e, com a atenção, tornou-se ininterrupto. O relógio de parede da sala. Pensou no convencionalismo do lugar. Engrifou sua consciência, levantou-se, abriu a janela e deixou o vento protervo entrar e misturar tudo.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Drum mond
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Com pac T ar
uma sucessão de subidas e descidas.
Ruas largas e irregulares. Impossível de ser diferente.
Todas as possibilidades de percursos alternativos que levassem de um ponto específico a um destino preestabelecido já tinham sido esgotadas e mesmo na mais curta das opções era proporcionalmente extenuante a andança,
mas que no ponto vantajoso,
e isso apenas porque sempre é necessário encontrar o acréscimo das situações,
proporcionava uma resistência em toda sua estrutura,
compactando-o.
domingo, 27 de julho de 2008
D oce de lito
Esforçava-se mais um pouco, era preciso ainda alguns centímetros para alcançar o objeto desejado, postado inerte em cima do armário da cozinha, e agora, era o braço que tinha que esticar-se mais, uma vez que os pés já haviam atingido a maior flexibilidade possível antes de haver algum tipo de distensão muscular. No esforço máximo dos membros superiores e inferiores a ponta do dedo médio roçou o que num pulo foi agarrado e com a falta de agilidade despencado no chão.
O pote de balas despencou para espatifar-se no chão e espalhar as pequenas guloseimas por toda a cozinha. No último quarto do corredor, onde seus pais dormiam, a luz é acesa. A criança, com o cuidado preciso de não cortar-se com os cacos do pote de vidro, apanha algumas balas e corre para seu quarto, o primeiro do corredor.
Antes de seu pai abrir a porta, a criança já está fingindo que dorme, e as provas de seu pequeno delito estão de baixo do travesseiro, produzindo a melada prova que a entregará na manhã seguinte, quando sua mãe arrumar a cama. Mas sua noite será de uma doce insônia.
Sol u cio n ar
domingo, 6 de julho de 2008
Ai nda fa Z. . . ?
To dos osnom es
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Sal ade e sp era
terça-feira, 3 de junho de 2008
Op ró x imo
O previsão do tempo era de chuva intensa, destes dias que a vontade parece padecer e por pura preguiça acaba cedendo à sonolência, mas nem uma gota até aquele momento havia caído do céu, mesmo com as nuvens, do ponto de vista do chão, estando visivelmente transbordantes, saturadas.
Entrou na pequena casa lotérica à três quadras de sua residência, pegou o pequeno papel de apostas, preencheu seus campos, anotou os seis números que durante todo o caminho memorizou, postou-se no último lugar da fila mediana que se formara, esperou sua vez por alguns minutos, pagou com moedas a mulher do guichê e com o comprovante saiu fazendo o mesmo caminho até sua casa.
Na manhã seguinte, esta sim de intensa chuva, contrariando mais uma vez as previsões que diziam ser uma manhã apenas nublada, saiu com destino ao destino de sua sorte. Com o pequeno papel na mão, contrariando sua própria certeza, conferiu que se quer um número ele havia acertado. Amassou o papel, jogou no lixo, e debaixo de chuva voltou para sua casa.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
D ese ugos to?
segunda-feira, 19 de maio de 2008
aoq uev Ê
domingo, 4 de maio de 2008
Es pat i fado
O quarto e o quinto toque se deram e dentro dele, ainda deitado e sem mover nenhuma minúscula parte do corpo, era como se a persistente pessoa que discara os números estivesse a ligar todo um dia, um dia inteiro, sem interrupção, já era essa a sua sensação. Estava de olhos fechados quando os toques começaram, mas no sexto toque fez força e fechou os olhos por dentro, ao avesso, o mesmo que fez com os ouvidos, como se os tímpanos se comprimissem até causar uma surdez profunda, sem começo nem fim. Tal movimento parece ter dado resultado pois não ouviu nem o sétimo, nem o oitavo, nem mais nenhum toque. Ao acordar na manhã seguinte não se lembrava de o telefone ter tocado e surpreso viu o aparelho espatifado num canto do quarto.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Pan flet á rio
No panfleto, o que mais chama a atenção deste menino, que segura centenas de cópias, ainda quentes, diretamente da gráfica, algumas em sua mão, a maioria na bolsa de abertura única que carrega pela alça , é um aviso no fim da propaganda; o departamento financeiro da empresa garante que se o consumidor encontrar na concorrência o mesmo produto mais barato, paga não uma, mas uma dúzia de vezes o valor da mercadoria, em dinheiro, no ato, é só trazer a nota fiscal do produto comprado na concorrência.
O trabalho do menino é levar o panfleto de casa em casa, num enquadramento de dez quarteirões, compreendendo desde a rua Clemente Pereira até a rua Lord Cockrane entre a Cipriano Barata e a Lino Coutinho, depositando-os nas caixas de correio; no caso de prédios entregar diretamente ao porteiro na quantidade de apartamentos, o que acha bom, pois é nos edifícios que consegue de uma só vez livrar-se de vários exemplares, abreviando o tempo de andança pelas ruas; o trato feito com o gerente, verbalmente mesmo , é que assim que se acabam as cópias o menino está dispensado e pode fazer o que quiser, jogar bola, ir pra casa, ver os amigos, e ultimamente pensar em Marlene.
Ganha trinta reais por semana, trabalhando de terça à sexta-feira, também o dia que recebe, às vezes aos sábados, mas aí é valor dobrado - fim de semana é sagrado - imita a voz e o modo de falar do dono do mercadinho. Como hoje ainda é terça-feira teria ainda muitas casas e edifícios para depositar a semente do alvoroço que causa um "cinquenta por cento de desconto" em senhoras, senhores, donas de casa, homens comuns de bairros tradicionais, mulheres tradicionais de bairros comuns.
Sua tia estudou no colégio Maria Imaculada e é amicíssima da mulher do dono da venda. Em ascensão financeira desde os anos 1980 e devido a ajuda do filho(hoje gerente) depois que formou-se Administrador de Empresas pela Universidade São Marcos no fim da década, a venda transformou-se em mercado de fato, tanto no que diz respeito à variedade e conservação dos alimentos como no espaço físico informatizado, limpo e claro, muito diferente do conservadorismo comercial reinante no bairro da Proclamação da República em que muito ainda conserva o mesmo cheiro de mofo, de umidade exposta, de tradição ultrapassada, ineficaz. Celina chama-se a tia. Celina arrumou o trabalho para o menino. E quase dois meses se passaram desde então. A história de Celina é somente esta. Muito diferente em importância da história de Marlene, como veremos em seguida.
Pois como o menino anda a todo este tempo por tanto tempo, desenvolveu alguns atos repetitivos, pequenos rituais, vícios inofencívos, como pegar sempre um bocado de panfletos dentro da bolsa com a mão esquerda e com a direita pegar a unidade superior do monte apenas quando está bem próximo à caixa de correio - para dinamizar a operação - costuma dizer para os outros meninos antes de cada um sair para suas ruas; outro é não desperdiçar o material ilustrativo não sendo raro vê-lo pegando uma pilha de propagandas jogadas em algum lixo por outro "menino panfletário" mais preguiçoso e oportunista e juntar ao seu monte para distribuir. Não por simples questão de princípios, mas porque assim, pode entregar em outras ruas , mais precisamente a rua Moreira e Costa onde mora Marlene e por sorte pode encontrá-la, e com mais sorte ainda encontrá-la sem as suas irritantes amigas, o que só aconteceu uma vez. E foi nesta vez que ele descobriu que ela era uma chocólatra convicta -não dispenso nem chocolates da Diziolli que é muito oleoso, agora se for Lindt, delicioso, simplesmente eu derreto - Falava tentando lembrar da voz doce da menina, e ele mesmo quase derretendo.
A mania mais interessante que desenvolveu foi entrar metodicamente em todos os pseudo-mercados, mercadinhos caindo aos pedaços, marcadolas, vendinhas e até chegar a pegar um ônibus até a Vila Mariana e percorrer os mercados, grandes mercados, hipermercados que encontra pela rua Vergueiro e a Domingos de Moraes. Vai direto nos produtos que estão na promoção da semana. Compara preço por preço e em nenhuma vez encontrou algum mais barato para poder receber doze vezes o mesmo valor, o que lhe deixa orgulhoso de saber que tem crédito o lugar onde trabalha, mas também deixa uma ponta de curiosidade, pois o que faria se encontrasse algo mais em conta? pediria a recompensa para o seu próprio chefe? Seria um atestado de infidelidade trabalhista, comprar na concorrência?
As semanas foram passando e vez ou outra cruzava rapidamente com Marlene pela rua, outras arranjava estes pequenos encontros, estando exatamente na mesma hora em que ela passava por algum lugar - coincidência te encontrar - diz sempre que isso acontece. O fato é que as coincidências começaram a ocorrer com tanta frequência que já deixara de ser coincidência e com o tempo ele foi ficando mais tranquilo na sua presença. Tão tranquilo que um dia, despretensiosamente, acabou convidando a menina para ir ao cinema; tranquilamente também foi aceito o convite. Marcado para o fim da semana, sexta-feira, dia que receberia seu salário semanal.
O dia do encontro demorou a chegar. As horas passavam arrastadas e ele fazia questão de demorar cada vez mais nas suas comparações de preços pelo bairro e fora dele.
O dia chegou. Sexta-feira. E já pela manhã tem uma grande surpresa. É que uma promoção eventual de fim de semana mostra uma caixa de chocolates Lindt Grande de diversos sabores com um preço que ele tinha certeza ter visto num hipermercado na Vila Mariana mais barato, questão de centavos, pois era quase o valor total do que recebia na semana.. Tinha certeza porque se especializara em preços de chocolate, especialmente Lindt.
O fim de tudo foi que o menino foi demitido logo após exigir seu prêmio para o dono do mercadinho. Com a "bolada" que ganhou ficou semanas sem trabalhar e começou a namorar Marlene.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
o q ue é qu ê
Se apenas solbesse quem realmente sou, deixaria de proceder como penso que sou. E se parasse de me comportar como penso ser, saberia quem sou.
O sim e o não viveriam reconciliados na abençoada aceitação da experiência de Ser Único. A aspiração de todas as religiões de eternizar somente o "sim" em cada par de opostos é irrealizável porque contraria a natureza das coisas.
Conflitos e frustrações - tema de toda história e de quase toda biografia.
"Eu lhes mostro o sofrimento", disse Buda, realisticamente. Porém ele também mostrou o fim do sofrimento - o autoconhecimento, a aceitação total e a abençoada experiência de Ser Único.
O perfeito autoconhecimento gera o Bom Ser, e os Bons Seres realizam uma melhor espécie de Bem. Mas as coisas bem feitas não produzem automaticamente o Bom Ser. Podemos ser virtuosos sem que saibamos quem realmente somos. Os indivíduos apenas bons não são necessariamente Bons Seres; são simples pilares da sociedade.
O verdadeiro conhecimento de quem realmente somos é que nos faz Bons; para sabermos quem realmente somos devemos conhecer nos mínimos detalhes aquilo que pensamos ser.
Se renovarmos esses momentos de autoconhecimento do que não somos, fazendo com que se tornem contínuos, poderemos vir a descobrir subitamente aquilo que realmente somos.
Mas o Bom Ser cenhece sua verdadeira posição em relação a todas as experiências e, desse modo, está em permanente estado de alerta. Está alerta ao que se possa crer, não crer, às coisas agradáveis e às desagradáveis, e essa vigilância não deve cessar, mesmo quando está imerso nos trabalhos e nos sofrimentos.
O "eu" que penso ser e o "eu" que realmente sou! Em outros termos, o sofrimento e o fim do sofrimento. Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de liberação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são "confeccionados em casa" e o universo os considera inteiramente supérfluos.
O patriotismo, a ciência, a religião, a arte, a política, a economia, o dever, a ação desinteressada e mesmo a contemplação (embora sublime), isoladamente não são suficientes. Nada é suficiente desde que o Todo seja deficiente".
Notas sobre o que é quê e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso
A ILHA - Aldous Huxley
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
em retr os pec tiv a
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
O suic ídio da ab elha
I
Segurava o martelo com uma concentração sobrenatural. O quarto estava sujo e com restos de comida pelos cantos. Ambiente propício para estas criaturas. Estas e outras menores e mais repugnantes, lugar onde Gregor, de Kafka, sentiria-se em casa e bem ambientado.
O cheiro do quarto era irreconhecível, no entanto único, uma mistura azeda em que não era possível distinguir, nem definir a procedência exata, podendo ser de algo estragado, de bitucas de cigarro, de roupas que por não serem lavadas há tempos fediam um tipo de suor coagulado ou de tudo isso. Partes meladas por vinho derramado e nunca limpas faziam grudar as coisas que ali tocavam.
Enquanto mirava a abelha na parede um pensamento lhe saltou à cabeça – destino cruel desta criatura. Mas quem mandou entrar no meu quarto sem ser convidada? Ponderou em seguida – se bem que ela não pode pensar assim, na verdade acho que ela não pode se quer pensar.
Então pensou, pensou – pois ele sim podia pensar – e decidido chegou a uma conclusão – para ser justo faço o seguinte: vou fechar os olhos e soltar o martelo em sua direção. Se acertar estará fadada à morte, mas uma morte rápida, sem dor, esmagadora e fria, sem culpas. Agora se errar você estará condenada à liberdade e poderá viver neste quarto se assim o quiser e for de sua vontade, se é que uma abelha tem vontades. Desta forma pareceu achar uma resposta para justificar o pequeno assassinato que talvez cometeria. Sentia-se justo e limpo agora.
II
Visualizou a abelha com os olhos fixos, mirando sobretudo o seu ferrão, cheio de veneno e pontiagudo. As pálpebras fecharam-se, esperava o momento exato, muita atenção, alguma tensão espalhando-se pelo braço, culminando no momento máximo com a pressão exercida pela mão e dedos no cabo do martelo e zupt!
Atingiu fortemente a parede fazendo um grande barulho e um tremendo buraco no local atingido, a uns dez centímetros da abelha.
Ao abrir os olhos, ansioso e na expectativa de saber o destino do pequeno animal, ainda pode vê-la levantando vôo, cruzando todo o quarto e pousando num emaranhado de papéis amassados em cima da mesa de cabeceira, do lado da cama, um pouco abaixo da janela.
De fato a abelha estava livre da morte, pelo menos naquele momento. O máximo que lhe aconteceu foi levar um enorme susto quando o martelo atingiu a parede, se bem que - pensou ele - uma abelha jamais se assustaria com a batida de um martelo na parede, acho que nem mesmo se visse um fantasma se assustaria. Abelhas não se assustam.
O fato é que ela estava a salvo e para fazer jus ao que pensara, pegou o papel amassado cuidadosamente e levou-o para fora da janela, levantando-o na altura do rosto; antes de soprá-la para fora disse - meu erro com o martelo te destinou à vida. Está livre. Por esta você passou; vá, se quiser voltar será bem vinda.
A abelha saiu voando rumo à folhagem, passando pela varanda e pousando no portão de entrada da casa. De repente uma pontada de remorso o acometeu, pois tinha soprado a abelha para fora. Pensou - e se ela achar que a expulsei, que quebrei o trato, que sou um farsante? Mas será que uma abelha pode achar alguma coisa? Não. - tranquilizou-se.
III
(Continua...)
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
At é ama n hã
Agora a primeira atriz ,que já chegou, se aquece e faz alongamentos dando piruetas e arrastando-se no chão, dando pequenos arranques de respiração e emitindo sons com a boca, grunhidos e princípios de gritos abafados. O equipamento de som começa a ser testado e equalizado, tocando bem alto a música de alguma ópera, com uma soprano e um tenor explodindo todos os seus graves e agudos.
De súbito o som para. O técnico avalia estar adequado acusticamente. Um breve silêncio se faz. Passos em direção ao piano. O primeiro músico que chega acomoda-se. Inicia as primeiras notas. É um exercício de voz para a atriz, que agora está em pé ao lado do piano de calda todo preto. O pianista toca notas ascendentes e descendentes que são logo acompanhadas pela voz da atriz que, aparentemente, atinge todas e as mesmas notas tocadas.
Daqui para frente, o teatro será calmamente preenchido por atores que chegarão, luzes que se acenderão, para depois serem apagas, e voltar a se acenderem, instrumentos que serão tocados, o público que virá assistir, ou à falta dele, as faxineiras que limparão toda a sala antes da apresentação, o diretor da peça que ainda dará muitas instruções ao elenco e diversas outras atividades que certamente ocorrerão até a apresentação, e durante toda a sessão, e depois dela também, das vivências que serão impressas na memória, das conversas que serão jogadas fora, outras acolhidas e bem guardadas, de tudo o que acontecerá até a última pessoa sair do teatro e com as luzes apagadas e o ambiente remexido por tudo quanto houve a porta ser trancada e o silêncio reinar triunfante.
Apenas o piano de calda todo preto terá permanecido todo o tempo no mesmo lugar, e agora também em completo silêncio. Bom, pelo menos até amanhã.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Ao s b erro s
A mente em reflexão
O azar e a sorte
O sim e o não
Os sonhos, a coruja que observa
As visões na escuridão, nas trevas
Os anjos e demônios
As conexões de neurônios
Jesus pregado, um cálice de cicuta
A morte decretada, uma palavra muda
As risadas debochadas
As amarguras superadas
A pá, a terra, a massa crua
A multidão enlouquecida
Os carros e mais carros enfileirados
Uma avenida preenchida
Os políticos subornados
A miséria esquecida
A farda de um soldado
A arma do bandido
A mansão do milionário
O jornal do mendigo
Os cinco minutos de fama
Os porcos na lama
Os mortos no necrotério
Os recém nascidos aos berros.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
pas sar in ho
E também avenidas abarrotadas.
Existem pessoas que tem muitos amigos.
Outras tantas solitárias.
Existem veias em nossos corpos mais finas que um fio de cabelo.
No entanto, também existem as artérias,
que se comparadas às ruas
seriam como enormes túneis que cortam o morro.
Mas... numa das ruas quase desertas,
perto do topo de uma árvore,
um pássaro, que nada sabe sobre ruas,
canta naturalmente uma melodia
que só não é apreciada em sua totalidade
por uma das pessoas solitárias que por ali passava,
por causa do barulho de alta tensão
que vinha do alto de um poste desregulado.
E dali, dado alguns passos à frente
desemboca numa enorme avenida
abarrotada.
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Ja nela ` a for a
O casaco de lã foi feito por uma senhora.
ESTE casaco de lã foi feito para ser dado como esmola. No bazar da igreja. E, além deste, mais cinco peças serão levadas amanhã bem cedo para a paróquia.
O casaco de lã irá parar nas mãos de uma outra senhora, que dará como presente de férias para o neto que vai acampar. O casaco de lã cairá da janela de um ônibus que leva a turma de uma escola para o campo, após uma guerra de papéis e todo tipo de objetos, no interior do ônibus, iniciada pelos estudantes eufóricos com as férias.
O casaco de lã será encontrado na rua ,e então, sujo e amarrotado, será dividido numa noite de intenso frio por três irmãos que dormem na rua, meninos de cinco, sete e dez anos, respectivamente.
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Cam ino
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Ond a de ch uva
Pedidos de reparo na pista foram feitos às autoridades de trânsito e até ao prefeito, que pedia calma pois o assunto dependia de verbas do Governo do Estado; a questão é Federal afirmava o governador. O tempo foi passando e o buraco aumentando, tornando a circulação dos automóveis inviável naquele trecho da pista.
Um buraco que aumenta a cada dia e nunca é reparado. Foi demarcado com uma fita de cor bem clara a sua área para que pedestres distraídos ao atravessar a rua não caíssem, para que carros enfurecidos não fossem engolidos. O mês da chuva chegou à cidade e com ele trouxe seu principal personagem: a chuva.
A visão muitas vezes pode nos enganar, e foi isso que aconteceu no local inundado. A rua toda ficou alagada por quase uma semana e o vento arrancou não só telhas e árvores, mas também a fita de cor berrante que demarcava a suave cratera. Aos poucos a água foi cedendo. Via-se poças espalhadas por toda a rua, fios retorcidos, lama por toda a parte.
Mas algo de extraordinário havia acontecido. Não se notava mais o buraco, e justamente por isso, o problema estava resolvido. Não havia mais buraco. O mês da chuva passou e com ele também foi embora seu principal personagem.
Um jornal foi jogado numa lixeira próxima, em sua manchete uma foto de carros sob os escombros numa enorme cratera de uma rua interditada com uma fita de cor berrante, com os seguintes escritos em sua legenda de rodapé: "transtornos provocados pela intensa onda de chuva".