sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Fri on a bar riga

O povo foi dissipado com uma facilidade impensada, nem uma resistência, nem uma luta, no máximo sussuros e resmungos.
De onde estava avistava uma planície bastante vasta, sem quase nada que a vista atrapalhasse, detinha uma observação geral do terreno e da rua.
Observava os miseráveis cortando as esquinas carregando suas quinquilharias.
Aproximou-se do parapeito até onde sua vertigem suportava, encostando de leve o abdómen na pedra gelada.
O contato intensificou a atmosfera de frio na barriga.
O que o fez recuar.
Antes do que seria capaz de ficar.
Agora, como herdeiro do imóvel terá que colocar ordem na bagunça e imundice.
Deixar pronto para alugar em três meses; no máximo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

éb rinca de ira

Crianças que mamam nas tetas das mães, é brincadeira
Homens que entram para o ramo da construção, é brincadeira
O esconde esconde da polícia e ladrão, é brincadeira
O Governo luta pelos interesses do cidadão, é brincadeira
O ópio do povo é o futebol e a religião, é brincadeira
A ONU admite o Brasil em constante evolução, é brincadeira
O OMO é a marca mais vendida de sabão, é brincadeira
A América do Sul está bem ao lado do Japão, é brincadeira
Todo arte é tão nutritiva quanto o feijão, é brincadeira

Res pira Ção daal ma

Desenhos das nuvens no céu
ebulição, vapor
areia quente
fruta com mel
cores ao amanhecer
cores ao anoitecer
cores
Ligação com o perder de vista
o vasto
o teu rastro é sempre apagado na areia
o que se vive, ao contrário, fica marcado na veia
sempre
entre duas coisas há o meio
do seio será sugado o leite
o tempero dará sabor a carne
o amor trará a calma
a respiração virá da alma

sábado, 13 de junho de 2009

Trin Tae do isdi as

Contados assim na folha do calendário que ficava grudado num íman na geladeira, já eram trinta e dois os dias em que não saía de casa; nem sequer à porta ia, quer dizer, até abria a porta mas não saía.
Não tratava-se de nem um tipo de fobia, destas que o sujeito sente-se inseguro e deslocado em ambientes abertos, nem tampouco a ultrapassada síndrome do pânico, nada disso. Apenas foi ficando em casa, e agora espantado, notava sua ausência física no mundo. Física porque continuava vivendo, fazia as compras de alimentos, material de limpeza e todo o resto através da internet, conversava com parentes e amigos via MSN e telefone; não sentia-se só.
Seu mirrado dinheiro provinha de microinvestimentos na bolsa de valores que também eram administrados pelo computador. Metade do tempo dormia, quase não comia e pensava demais; talvez por isso não notara o tempo passar. Também sonhava demais, mas nunca lembrava-se ao acordar.
Sentia sim falta de uma namorada, mas nada que o atormentasse muito, ademais mantinha relações virtuais com inúmeras mulheres em todos os cantos do país, só não do mundo pois não falava outras línguas.
O frio nos últimos dias era intenso, não gostava de sentir-se gelado, o frio deixava-o tenso; mais um motivo para não sair, na verdade, aparentemente o único motivo para não sair, pois não encontrava outro que justificasse sua reclusão.
Por fim, resolveu que deveria sair, como aconselhava seus amigos, arejar, espairecer, caminhar, ver gente ao vivo, observar os transeuntes relacionarem -se, relacionar-se com os transeuntes, levar a vida, ver o trânsito, enfim, sentir-se fazendo parte da sociedade.

Foi o que fez. Na manhã do 33° dia em casa, deixou a clausura e saiu. Caminhou todo o dia e após voltar para casa de noite sentia-se extasiado e feliz. Dormiu.
Um mês depois, ao mudar a folha do calendário notou que já eram trinta e dois os dias que não saía de casa.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Pá gina

Página em branco.
O que faz começar a escrita?
Qual o impulso? o pulso...
De que material o vazio é preenchido?
de tudo o que pode ser imaginado, pensado e concebido,
entendido?
ou algo que ainda se revelará,
na próxima linha, ou
na entrelinha.

Depois que começa pode continuar
fluida, ininterrupta, jorrante,
saindo pelas bordas;
mas também pode,
assim sem mais, cessar,
e assim, ser a última
palavra
da
página.
E, neste caso, a própria página.

Dom un do


Do mundo tudo se esquece
aquele que nunca viveu
Das coisas tudo se tira
e até o que se perde
no fim é acréscimo
se algo promoveu
Do mundo nada se leva
o acúmulo não serve
para o túmulo só o corpo,
pequenos objetos e algumas vestes
O fim perpétuo?
Ou o início de quê?
Depois do mundo algumas estrelas
cadeias de constelações,
planetas desconhecidos, especulações
Enormes dúvidas, poucas certezas
Nenhuma salvação para o derradeiro
E, por enquanto, eu,
pura contemplação.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

U mjog ado r

..."Sim, ás vezes, a idéia mais absurda. a mais impossível na aparência, fixa-se tão fortemente em nós que passamos a aceitá-la como algo realizável... Mais: se essa idéia se liga a um desejo intenso, apaixonado, aceitamo-la, por vezes, como algo fatal, indispensável, predestinado, como algo que não pode deixar de ser e de acontecer! É possível que haja nisso algo mais, alguma combinação de pressentimentos, algum extraordinário esforço da vontade, um envenenamento por meio da própria imaginação, ou mais ainda - não sei. Mas, nessa noite (que não esquecerei em toda a minha vida), aconteceu-me um fato milagroso. Embora ele seja confirmado plenamente pela aritmética, continuo a considerá-lo milagroso até hoje. E por que, sim, por que tal certeza estava tão profundamente, tão intensamente enraizada em mim, e de tão longa data? Certamente, eu já pensava nisso - repito-o a vocês - não como um caso que pode acontecer como outros (sendo, por conseguinte, possível também a eventualidade contrária), mas como algo que não pode em hipótese alguma deixar de acontecer!
Eis uma realidade! Eis o que pode significar, às vezes, o derradeiro florim! E o que aconteceria, se eu naquele momento tivesse perdido a confiança, se não me atrevesse a decidir-me?"...


Um jogador - Fiódor Dostoiévski

domingo, 14 de setembro de 2008

An fiar tro se

Suas articulações, momentaneamente, fizeram-se de movimentos reduzidos, uma mobilidade incompleta, o que poderia chamar-se de anfiartrose. Sentia sua circulação, cada uma das veias que trazem o sangue de todas as partes do corpo ao coração.
O quase silêncio só não era inteiro porque era cortado pelo som do galinheiro distante não mais que cem metros da janela fechada, e por isso, o cacarejar chegava mais abafado. Olhando com mais cuidado para o batente da janela, um molusco, pertencente à terceira classe do reino animal, desloca-se de forma imperceptível encerrado em sua concha. Seu faro deu o sinal, estabeleceu o indício. Um completo partista. É o que diz em pensamento. Auto-pensamento. Outro ruído deixou de não existir e, com a atenção, tornou-se ininterrupto. O relógio de parede da sala. Pensou no convencionalismo do lugar. Engrifou sua consciência, levantou-se, abriu a janela e deixou o vento protervo entrar e misturar tudo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Drum mond

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura,da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo,um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos".

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Com pac T ar

Fazia quase sempre o mesmo caminho,
uma sucessão de subidas e descidas.
Ruas largas e irregulares. Impossível de ser diferente.
Todas as possibilidades de percursos alternativos que levassem de um ponto específico a um destino preestabelecido já tinham sido esgotadas e mesmo na mais curta das opções era proporcionalmente extenuante a andança,
mas que no ponto vantajoso,
e isso apenas porque sempre é necessário encontrar o acréscimo das situações,
proporcionava uma resistência em toda sua estrutura,
compactando-o.

domingo, 27 de julho de 2008

D oce de lito

Equilibrava-se na ponta dos pés e uma pequena pontada de cãibra no meio da sola começava a exigir que voltasse à posição correta e estável de toda a sua extensão no chão, equilibrado, constante e pronto para o próximo passo.
Esforçava-se mais um pouco, era preciso ainda alguns centímetros para alcançar o objeto desejado, postado inerte em cima do armário da cozinha, e agora, era o braço que tinha que esticar-se mais, uma vez que os pés já haviam atingido a maior flexibilidade possível antes de haver algum tipo de distensão muscular. No esforço máximo dos membros superiores e inferiores a ponta do dedo médio roçou o que num pulo foi agarrado e com a falta de agilidade despencado no chão.
O pote de balas despencou para espatifar-se no chão e espalhar as pequenas guloseimas por toda a cozinha. No último quarto do corredor, onde seus pais dormiam, a luz é acesa. A criança, com o cuidado preciso de não cortar-se com os cacos do pote de vidro, apanha algumas balas e corre para seu quarto, o primeiro do corredor.
Antes de seu pai abrir a porta, a criança já está fingindo que dorme, e as provas de seu pequeno delito estão de baixo do travesseiro, produzindo a melada prova que a entregará na manhã seguinte, quando sua mãe arrumar a cama. Mas sua noite será de uma doce insônia.

Sol u cio n ar

Solução, solucionar.
Desvendado sol, desvendar.
Correr para depois parar.
Respirar.
Pirar, enlouquecer.
Esquecer de ser, não ser.
Folia, foliar.
Ficar ou ir.
Ou esperar.
Promover, para mover.
Provar.
Aprovar.
Solução, solucionar.

domingo, 6 de julho de 2008

Ai nda fa Z. . . ?

Naquela ocasião seria celebrado mais um ano que passava.
Mas para a maioria era apenas mais um dia.
Para a grande massa de gente ao redor do planeta,
compreendendo o mundo todo,
era outro dia que chegava,
para depois de vinte e quatro horas passar,
não ser mais,
só isso.
Gostava do revés,
da contra-mão,
das vias tortas,
do oposto,
do contrário,
do contra.
Contra a sua vontade,
ainda que menos que antes,
quando mais jovem,
faz coisas que seu modo de ver nega,
renega.
Mas não quer mais fazer.
Não faz?
Ainda faz.
Quer fazer?
Não.
Ainda faz...?

To dos osnom es

..."está apenas como alguém que, tendo subido a uma montanha para alcançar as paisagens de além, resiste a regressar ao vale enquanto não sentir que nos seus olhos deslumbrados já não cabem mais vastidões".
Trecho de "Todos os nomes" - José Saramago

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Sal ade e sp era

Tocava uma música facilmente classificada como de sala de espera, qualquer que fosse, de um dentista, supermercado, shopping center, boutique, e até de um médico geral, que era onde ele estava aguardando já meio sem paciência. Até gostava de salas de espera de médicos, mas como acompanhante, não como o próximo paciente, quer dizer, como o paciente número 00278, o número da senha que tem em mãos desde que entrou no hospital e apertou o botão da pequena máquina ao lado da porta de entrada, que logo após o toque emitiu alguns pequenos ruídos e por fim cuspiu o papel que leva em sua mão e que então sentado espera observando o grande painel luminoso que apita a cada número que altera. Estava marcando o número 00259 quando baixou os olhos e notou uma outra senha jogada no chão, bem próximo ao seu pé, quase em baixo do banco que estava sentado. Olhou ao redor para tentar ver de quem poderia ser aquela senha, mas após minuciosa observação pode constatar que todos que ali estavam, desde a senhora asmática que a cada cinco minutos borrifava para dentro de seu organismo através da boca uma bombinha destas de inflar o pulmão ou coisa parecida, até a mãe da pequena menina com cara de doente, quieta no colo, choramingando, todos pareciam aguardar a sua vez e tinham em mãos, cada um o seu papel de senha. Fingindo amarrar os sapatos, desviou o braço e discretamente pegou a senha jogada. Assim que conseguiu virá-la, ainda curvado leu seus números, 00260 era o número. Pensou rapidamente no que fazer quando o aviso sonoro anunciou o próximo número, exatamente o 00260. Nada fez até o segundo aviso sonoro. As pessoas começaram o olhar umas para as outras, todos liam e reliam suas senhas. No terceiro e último aviso sonoro ele juntou as duas senhas que tinha em suas mãos, discretamente jogou-as onde antes uma apenas havia, fingiu terminar de arrumar o sapato, levantou-se e quando o painel anunciava o número 00261 já estava na porta do hospital. Assim que a senhora asmática entrava para sua consulta ele já estava fora do hospital.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Op ró x imo

Ocorreu-lhe de súbito que ele seria o próximo. Não por nenhum aviso nem por qualquer outra coisa de ordem intuitiva, nem tão pouco de cunho sobrenatural. E este acontecimento, na superfície, tirou sua ordem já abalada, nas profundezas, de natureza confusa, induziu um pequeno movimento corporal e ele saiu a andar.
O previsão do tempo era de chuva intensa, destes dias que a vontade parece padecer e por pura preguiça acaba cedendo à sonolência, mas nem uma gota até aquele momento havia caído do céu, mesmo com as nuvens, do ponto de vista do chão, estando visivelmente transbordantes, saturadas.
Entrou na pequena casa lotérica à três quadras de sua residência, pegou o pequeno papel de apostas, preencheu seus campos, anotou os seis números que durante todo o caminho memorizou, postou-se no último lugar da fila mediana que se formara, esperou sua vez por alguns minutos, pagou com moedas a mulher do guichê e com o comprovante saiu fazendo o mesmo caminho até sua casa.
Na manhã seguinte, esta sim de intensa chuva, contrariando mais uma vez as previsões que diziam ser uma manhã apenas nublada, saiu com destino ao destino de sua sorte. Com o pequeno papel na mão, contrariando sua própria certeza, conferiu que se quer um número ele havia acertado. Amassou o papel, jogou no lixo, e debaixo de chuva voltou para sua casa.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

D ese ugos to?

O seu mundo é idílico.
Uma mistura umas vezes clara e outras nem tanto.
E só depois que se vive a tragédia é que se pode rir.
Das coisas, das pessoas, de si próprio.
O peso é seu alento
e quando visto
seu alimento.
Seu sabor por vezes salgado
deixa-o sedento.
Sentimento agridoce
conduzindo seu tempero.
De seu gosto?

segunda-feira, 19 de maio de 2008

aoq uev Ê

aberta
na certa
direta
concreta
desperta
atenção
ao que vê
duela
mazela
tigela
caverna
moderna
atenção
ao que vê
disputa
conduta
façanha
barganha
tamanha
atenção
ao que vê

domingo, 4 de maio de 2008

Es pat i fado

O telefone tocou a primeira vez sem que ele se quer movesse um músculo, nada, nem um dedo. No segundo toque foi o seu pensamento que esboçou uma primeira reação, uma leve sensação de desgosto, de irritação. O terceiro toque dava sinais que uma explosão se daria, se não externa, com toda a certeza de cunho interno, pessoal, íntimo. Mas antes do quarto toque seu pensamento irrompeu sem disfarce. Era a irritação que chegara, límpida, transfigurada na certeza de que não queria atender ao aparelho telefônico e não iria mesmo.
O quarto e o quinto toque se deram e dentro dele, ainda deitado e sem mover nenhuma minúscula parte do corpo, era como se a persistente pessoa que discara os números estivesse a ligar todo um dia, um dia inteiro, sem interrupção, já era essa a sua sensação. Estava de olhos fechados quando os toques começaram, mas no sexto toque fez força e fechou os olhos por dentro, ao avesso, o mesmo que fez com os ouvidos, como se os tímpanos se comprimissem até causar uma surdez profunda, sem começo nem fim. Tal movimento parece ter dado resultado pois não ouviu nem o sétimo, nem o oitavo, nem mais nenhum toque. Ao acordar na manhã seguinte não se lembrava de o telefone ter tocado e surpreso viu o aparelho espatifado num canto do quarto.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Pan flet á rio

O panfleto de propaganda mede não mais que o tamanho de uma página de revista. Ilustrado, traz fotos com os produtos em promoção na semana. Em baixo de cada foto a descrição da mercadoria, seu preço riscado com um grande X vermelho, ao lado outro número bem maior com o preço já descontado o valor da promoção; um terceiro número ainda em maior evidência, em vermelho, circulado duas vezes, calcula a economia que o freguês pode ter caso compre estes produtos nesta determinada loja - ainda por cima com a comodidade de aceitar todos os cartões de crédito ou mesmo a compra em dois cliques pela internet, a entrega é feita no mesmo dia. Este é o próximo setor que atuará o menino na evolução da empresa, prometida pelo próprio diretor do mercadinho webzado. Entregará os pedidos feitos via grande rede, não mais andando, mas de bicicleta - e olha que cedida pelo mercadinho - pensa enquanto anda, e quanto mais anda quase chega a falar em voz alta; para ele mesmo.
No panfleto, o que mais chama a atenção deste menino, que segura centenas de cópias, ainda quentes, diretamente da gráfica, algumas em sua mão, a maioria na bolsa de abertura única que carrega pela alça , é um aviso no fim da propaganda; o departamento financeiro da empresa garante que se o consumidor encontrar na concorrência o mesmo produto mais barato, paga não uma, mas uma dúzia de vezes o valor da mercadoria, em dinheiro, no ato, é só trazer a nota fiscal do produto comprado na concorrência.
O trabalho do menino é levar o panfleto de casa em casa, num enquadramento de dez quarteirões, compreendendo desde a rua Clemente Pereira até a rua Lord Cockrane entre a Cipriano Barata e a Lino Coutinho, depositando-os nas caixas de correio; no caso de prédios entregar diretamente ao porteiro na quantidade de apartamentos, o que acha bom, pois é nos edifícios que consegue de uma só vez livrar-se de vários exemplares, abreviando o tempo de andança pelas ruas; o trato feito com o gerente, verbalmente mesmo , é que assim que se acabam as cópias o menino está dispensado e pode fazer o que quiser, jogar bola, ir pra casa, ver os amigos, e ultimamente pensar em Marlene.
Ganha trinta reais por semana, trabalhando de terça à sexta-feira, também o dia que recebe, às vezes aos sábados, mas aí é valor dobrado - fim de semana é sagrado - imita a voz e o modo de falar do dono do mercadinho. Como hoje ainda é terça-feira teria ainda muitas casas e edifícios para depositar a semente do alvoroço que causa um "cinquenta por cento de desconto" em senhoras, senhores, donas de casa, homens comuns de bairros tradicionais, mulheres tradicionais de bairros comuns.
Sua tia estudou no colégio Maria Imaculada e é amicíssima da mulher do dono da venda. Em ascensão financeira desde os anos 1980 e devido a ajuda do filho(hoje gerente) depois que formou-se Administrador de Empresas pela Universidade São Marcos no fim da década, a venda transformou-se em mercado de fato, tanto no que diz respeito à variedade e conservação dos alimentos como no espaço físico informatizado, limpo e claro, muito diferente do conservadorismo comercial reinante no bairro da Proclamação da República em que muito ainda conserva o mesmo cheiro de mofo, de umidade exposta, de tradição ultrapassada, ineficaz. Celina chama-se a tia. Celina arrumou o trabalho para o menino. E quase dois meses se passaram desde então. A história de Celina é somente esta. Muito diferente em importância da história de Marlene, como veremos em seguida.
Pois como o menino anda a todo este tempo por tanto tempo, desenvolveu alguns atos repetitivos, pequenos rituais, vícios inofencívos, como pegar sempre um bocado de panfletos dentro da bolsa com a mão esquerda e com a direita pegar a unidade superior do monte apenas quando está bem próximo à caixa de correio - para dinamizar a operação - costuma dizer para os outros meninos antes de cada um sair para suas ruas; outro é não desperdiçar o material ilustrativo não sendo raro vê-lo pegando uma pilha de propagandas jogadas em algum lixo por outro "menino panfletário" mais preguiçoso e oportunista e juntar ao seu monte para distribuir. Não por simples questão de princípios, mas porque assim, pode entregar em outras ruas , mais precisamente a rua Moreira e Costa onde mora Marlene e por sorte pode encontrá-la, e com mais sorte ainda encontrá-la sem as suas irritantes amigas, o que só aconteceu uma vez. E foi nesta vez que ele descobriu que ela era uma chocólatra convicta -não dispenso nem chocolates da Diziolli que é muito oleoso, agora se for Lindt, delicioso, simplesmente eu derreto - Falava tentando lembrar da voz doce da menina, e ele mesmo quase derretendo.
A mania mais interessante que desenvolveu foi entrar metodicamente em todos os pseudo-mercados, mercadinhos caindo aos pedaços, marcadolas, vendinhas e até chegar a pegar um ônibus até a Vila Mariana e percorrer os mercados, grandes mercados, hipermercados que encontra pela rua Vergueiro e a Domingos de Moraes. Vai direto nos produtos que estão na promoção da semana. Compara preço por preço e em nenhuma vez encontrou algum mais barato para poder receber doze vezes o mesmo valor, o que lhe deixa orgulhoso de saber que tem crédito o lugar onde trabalha, mas também deixa uma ponta de curiosidade, pois o que faria se encontrasse algo mais em conta? pediria a recompensa para o seu próprio chefe? Seria um atestado de infidelidade trabalhista, comprar na concorrência?
As semanas foram passando e vez ou outra cruzava rapidamente com Marlene pela rua, outras arranjava estes pequenos encontros, estando exatamente na mesma hora em que ela passava por algum lugar - coincidência te encontrar - diz sempre que isso acontece. O fato é que as coincidências começaram a ocorrer com tanta frequência que já deixara de ser coincidência e com o tempo ele foi ficando mais tranquilo na sua presença. Tão tranquilo que um dia, despretensiosamente, acabou convidando a menina para ir ao cinema; tranquilamente também foi aceito o convite. Marcado para o fim da semana, sexta-feira, dia que receberia seu salário semanal.
O dia do encontro demorou a chegar. As horas passavam arrastadas e ele fazia questão de demorar cada vez mais nas suas comparações de preços pelo bairro e fora dele.
O dia chegou. Sexta-feira. E já pela manhã tem uma grande surpresa. É que uma promoção eventual de fim de semana mostra uma caixa de chocolates Lindt Grande de diversos sabores com um preço que ele tinha certeza ter visto num hipermercado na Vila Mariana mais barato, questão de centavos, pois era quase o valor total do que recebia na semana.. Tinha certeza porque se especializara em preços de chocolate, especialmente Lindt.
O fim de tudo foi que o menino foi demitido logo após exigir seu prêmio para o dono do mercadinho. Com a "bolada" que ganhou ficou semanas sem trabalhar e começou a namorar Marlene.




quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ate n çã o

"E um pássaro mainá grita:

ATENÇÃO" !


A ilha - A. Huxley

terça-feira, 1 de abril de 2008

o q ue é qu ê

"Ninguém precisa ir a parte alguma. Como seria bom que todos solbessem disso!

Se apenas solbesse quem realmente sou, deixaria de proceder como penso que sou. E se parasse de me comportar como penso ser, saberia quem sou.

O sim e o não viveriam reconciliados na abençoada aceitação da experiência de Ser Único. A aspiração de todas as religiões de eternizar somente o "sim" em cada par de opostos é irrealizável porque contraria a natureza das coisas.

Conflitos e frustrações - tema de toda história e de quase toda biografia.

"Eu lhes mostro o sofrimento", disse Buda, realisticamente. Porém ele também mostrou o fim do sofrimento - o autoconhecimento, a aceitação total e a abençoada experiência de Ser Único.

O perfeito autoconhecimento gera o Bom Ser, e os Bons Seres realizam uma melhor espécie de Bem. Mas as coisas bem feitas não produzem automaticamente o Bom Ser. Podemos ser virtuosos sem que saibamos quem realmente somos. Os indivíduos apenas bons não são necessariamente Bons Seres; são simples pilares da sociedade.

O verdadeiro conhecimento de quem realmente somos é que nos faz Bons; para sabermos quem realmente somos devemos conhecer nos mínimos detalhes aquilo que pensamos ser.
Se renovarmos esses momentos de autoconhecimento do que não somos, fazendo com que se tornem contínuos, poderemos vir a descobrir subitamente aquilo que realmente somos.
Mas o Bom Ser cenhece sua verdadeira posição em relação a todas as experiências e, desse modo, está em permanente estado de alerta. Está alerta ao que se possa crer, não crer, às coisas agradáveis e às desagradáveis, e essa vigilância não deve cessar, mesmo quando está imerso nos trabalhos e nos sofrimentos.

O "eu" que penso ser e o "eu" que realmente sou! Em outros termos, o sofrimento e o fim do sofrimento. Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de liberação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são "confeccionados em casa" e o universo os considera inteiramente supérfluos.

O patriotismo, a ciência, a religião, a arte, a política, a economia, o dever, a ação desinteressada e mesmo a contemplação (embora sublime), isoladamente não são suficientes. Nada é suficiente desde que o Todo seja deficiente".




Notas sobre o que é quê e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso

A ILHA - Aldous Huxley

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

em retr os pec tiv a

Enquanto procura tenta lembrar-se de algum detalhe, algo que facilite a busca. Nestas circunstâncias qualquer coisa o deixará feliz...
... ou não.
O melhor no caso em que encontra-se é parar e tentar relembrar os acontecimentos ao inverso; deste exato momento, pensando no que fez axatamente agora, até o que desencadeou sua última ação, e mais anteriormente, e mais anteriormente ainda, e como cada acontecimento gerou sua respectiva ação, e como outra ação foi gerada desta ação, até chegar ao que realmente procura.
Buscava o precursor dos acontecimentos.
Foi aí que começou a achar coisas que não procurava, coisas desconhecidas, coisas esquecidas. Uma volta completa se deu em seu pensamento, e agora, voltava para o mesmo ponto de onde começara a procura.
A busca está terminada.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O suic ídio da ab elha

I
Segurava o martelo com uma concentração sobrenatural. O quarto estava sujo e com restos de comida pelos cantos. Ambiente propício para estas criaturas. Estas e outras menores e mais repugnantes, lugar onde Gregor, de Kafka, sentiria-se em casa e bem ambientado.
O cheiro do quarto era irreconhecível, no entanto único, uma mistura azeda em que não era possível distinguir, nem definir a procedência exata, podendo ser de algo estragado, de bitucas de cigarro, de roupas que por não serem lavadas há tempos fediam um tipo de suor coagulado ou de tudo isso. Partes meladas por vinho derramado e nunca limpas faziam grudar as coisas que ali tocavam.
Enquanto mirava a abelha na parede um pensamento lhe saltou à cabeça – destino cruel desta criatura. Mas quem mandou entrar no meu quarto sem ser convidada? Ponderou em seguida – se bem que ela não pode pensar assim, na verdade acho que ela não pode se quer pensar.
Então pensou, pensou – pois ele sim podia pensar – e decidido chegou a uma conclusão – para ser justo faço o seguinte: vou fechar os olhos e soltar o martelo em sua direção. Se acertar estará fadada à morte, mas uma morte rápida, sem dor, esmagadora e fria, sem culpas. Agora se errar você estará condenada à liberdade e poderá viver neste quarto se assim o quiser e for de sua vontade, se é que uma abelha tem vontades. Desta forma pareceu achar uma resposta para justificar o pequeno assassinato que talvez cometeria. Sentia-se justo e limpo agora.



II

Visualizou a abelha com os olhos fixos, mirando sobretudo o seu ferrão, cheio de veneno e pontiagudo. As pálpebras fecharam-se, esperava o momento exato, muita atenção, alguma tensão espalhando-se pelo braço, culminando no momento máximo com a pressão exercida pela mão e dedos no cabo do martelo e zupt!
Atingiu fortemente a parede fazendo um grande barulho e um tremendo buraco no local atingido, a uns dez centímetros da abelha.
Ao abrir os olhos, ansioso e na expectativa de saber o destino do pequeno animal, ainda pode vê-la levantando vôo, cruzando todo o quarto e pousando num emaranhado de papéis amassados em cima da mesa de cabeceira, do lado da cama, um pouco abaixo da janela.
De fato a abelha estava livre da morte, pelo menos naquele momento. O máximo que lhe aconteceu foi levar um enorme susto quando o martelo atingiu a parede, se bem que - pensou ele - uma abelha jamais se assustaria com a batida de um martelo na parede, acho que nem mesmo se visse um fantasma se assustaria. Abelhas não se assustam.
O fato é que ela estava a salvo e para fazer jus ao que pensara, pegou o papel amassado cuidadosamente e levou-o para fora da janela, levantando-o na altura do rosto; antes de soprá-la para fora disse - meu erro com o martelo te destinou à vida. Está livre. Por esta você passou; vá, se quiser voltar será bem vinda.
A abelha saiu voando rumo à folhagem, passando pela varanda e pousando no portão de entrada da casa. De repente uma pontada de remorso o acometeu, pois tinha soprado a abelha para fora. Pensou - e se ela achar que a expulsei, que quebrei o trato, que sou um farsante? Mas será que uma abelha pode achar alguma coisa? Não. - tranquilizou-se.

III
(Continua...)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

At é ama n hã

Um piano de calda todo preto ao fundo, um violino em repouso na cadeira de veludo azul ao lado, mais seis cadeiras do mesmo tipo e cor paralelas, que mais tarde serão ocupadas pelo contra baixista, o violão celista, o flautista e demais músicos que compõem a pequena orquestra. Apenas uma atriz e o técnico de som chegaram, a atriz se troca no camarim, o técnico de som liga o equipamento. Poucas luzes estão acesas no teatro, sendo dois refletores em pino no palco, a luz verde que cobre o espaço dos músicos e as pequenas luzes de sinalização nos pisos dos corredores de acesso à saída, com as poltronas vazias da platéia no escuro.
Agora a primeira atriz ,que já chegou, se aquece e faz alongamentos dando piruetas e arrastando-se no chão, dando pequenos arranques de respiração e emitindo sons com a boca, grunhidos e princípios de gritos abafados. O equipamento de som começa a ser testado e equalizado, tocando bem alto a música de alguma ópera, com uma soprano e um tenor explodindo todos os seus graves e agudos.
De súbito o som para. O técnico avalia estar adequado acusticamente. Um breve silêncio se faz. Passos em direção ao piano. O primeiro músico que chega acomoda-se. Inicia as primeiras notas. É um exercício de voz para a atriz, que agora está em pé ao lado do piano de calda todo preto. O pianista toca notas ascendentes e descendentes que são logo acompanhadas pela voz da atriz que, aparentemente, atinge todas e as mesmas notas tocadas.
Daqui para frente, o teatro será calmamente preenchido por atores que chegarão, luzes que se acenderão, para depois serem apagas, e voltar a se acenderem, instrumentos que serão tocados, o público que virá assistir, ou à falta dele, as faxineiras que limparão toda a sala antes da apresentação, o diretor da peça que ainda dará muitas instruções ao elenco e diversas outras atividades que certamente ocorrerão até a apresentação, e durante toda a sessão, e depois dela também, das vivências que serão impressas na memória, das conversas que serão jogadas fora, outras acolhidas e bem guardadas, de tudo o que acontecerá até a última pessoa sair do teatro e com as luzes apagadas e o ambiente remexido por tudo quanto houve a porta ser trancada e o silêncio reinar triunfante.
Apenas o piano de calda todo preto terá permanecido todo o tempo no mesmo lugar, e agora também em completo silêncio. Bom, pelo menos até amanhã.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Ao s b erro s

Os incensos que queimam
A mente em reflexão
O azar e a sorte
O sim e o não

Os sonhos, a coruja que observa
As visões na escuridão, nas trevas
Os anjos e demônios
As conexões de neurônios

Jesus pregado, um cálice de cicuta
A morte decretada, uma palavra muda

As risadas debochadas
As amarguras superadas
A pá, a terra, a massa crua

A multidão enlouquecida
Os carros e mais carros enfileirados
Uma avenida preenchida
Os políticos subornados
A miséria esquecida

A farda de um soldado
A arma do bandido
A mansão do milionário
O jornal do mendigo

Os cinco minutos de fama
Os porcos na lama
Os mortos no necrotério
Os recém nascidos aos berros.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

pas sar in ho

Existem ruas que são quase desertas.
E também avenidas abarrotadas.
Existem pessoas que tem muitos amigos.
Outras tantas solitárias.
Existem veias em nossos corpos mais finas que um fio de cabelo.
No entanto, também existem as artérias,
que se comparadas às ruas
seriam como enormes túneis que cortam o morro.
Mas... numa das ruas quase desertas,
perto do topo de uma árvore,
um pássaro, que nada sabe sobre ruas,
canta naturalmente uma melodia
que só não é apreciada em sua totalidade
por uma das pessoas solitárias que por ali passava,
por causa do barulho de alta tensão
que vinha do alto de um poste desregulado.
E dali, dado alguns passos à frente
desemboca numa enorme avenida
abarrotada.
.
.
.
Dedicado aos clandestinos do IEMS (Instituto Experimental Mesclagem Sonora)

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ja nela ` a for a

O casaco de lã foi feito por uma senhora. Esse era seu preferido passa tempo. Tricotar. Fiar. O inverno estava longe, mas uma enorme quantidade de gorros, cachecóis, cháles, casaquinhos e outros acessórios de inverno já estão prontos e destinados aos sobrinhos, filhos, netos, amigas do carteado, e até um bisneto, ainda bebê, separado para ele dois pares de sapatinhos e um babador. Ainda serão feitos dois casacos compridos para o neto que vai passar as férias da escola num acampamento no campo. Estes não serão usados, uma vez que o pré-adolescente acha aquele fiar grosseiro inadequado para acompanhar as brilhantes e coloridas estampas e logotipos dos modernos casacos com aquecimento interno e proteção térmica dos colegas. Sentiria vergonha usando os trajes de lã, que ainda por cima tinham a gola alta, daquelas que quase enforcam você após uma brusca virada de cabeça.
O casaco de lã foi feito por uma senhora.
ESTE casaco de lã foi feito para ser dado como esmola. No bazar da igreja. E, além deste, mais cinco peças serão levadas amanhã bem cedo para a paróquia.
O casaco de lã irá parar nas mãos de uma outra senhora, que dará como presente de férias para o neto que vai acampar. O casaco de lã cairá da janela de um ônibus que leva a turma de uma escola para o campo, após uma guerra de papéis e todo tipo de objetos, no interior do ônibus, iniciada pelos estudantes eufóricos com as férias.
O casaco de lã será encontrado na rua ,e então, sujo e amarrotado, será dividido numa noite de intenso frio por três irmãos que dormem na rua, meninos de cinco, sete e dez anos, respectivamente.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Cam ino

Caminho da corrida para a saída.
Destino traçado pelo acaso.
Caminho do sonho... dentro do pesadelo.
O hino cantado.. com a mão no peito.
O riso que rasga, escancara o desatento.
Ciganas que acreditam desvendar o próximo momento.
Caminho que vamos,
que estamos,
que queremos.
Real é o que sonho ou real é o que vejo !?
Senhoras e senhores, é dada as boas vindas pra quem chega.
Que as portas se abram para o grande público
e nunca se fechem para alguns isolados,
ainda mais se poucos são..
A saída é necessariamente uma nova entrada
que necessariamente precisa da saída
para ter significado.
Devaneios, perambulações...
O valor despendido para financiar a terminável estada
será alto de+mais !?
Quem vai ajudar a encontrar a saída ?!
As camélias também desbotam-se com o tempo.



Inspirado na peça CAMINO REAL de Tennessee Williams

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Ond a de ch uva

No meio da pista principal, logo após um grande caminhão passar, uma pequena rachadura formou-se, quase imperceptível nos primeiros dias, até que tornou-se notável quando um carro em alta velocidade no meio da madrugada passou, no que já era um desnível e um princípio de buraco, furando o pneu.
Pedidos de reparo na pista foram feitos às autoridades de trânsito e até ao prefeito, que pedia calma pois o assunto dependia de verbas do Governo do Estado; a questão é Federal afirmava o governador. O tempo foi passando e o buraco aumentando, tornando a circulação dos automóveis inviável naquele trecho da pista.
Um buraco que aumenta a cada dia e nunca é reparado. Foi demarcado com uma fita de cor bem clara a sua área para que pedestres distraídos ao atravessar a rua não caíssem, para que carros enfurecidos não fossem engolidos. O mês da chuva chegou à cidade e com ele trouxe seu principal personagem: a chuva.
A visão muitas vezes pode nos enganar, e foi isso que aconteceu no local inundado. A rua toda ficou alagada por quase uma semana e o vento arrancou não só telhas e árvores, mas também a fita de cor berrante que demarcava a suave cratera. Aos poucos a água foi cedendo. Via-se poças espalhadas por toda a rua, fios retorcidos, lama por toda a parte.
Mas algo de extraordinário havia acontecido. Não se notava mais o buraco, e justamente por isso, o problema estava resolvido. Não havia mais buraco. O mês da chuva passou e com ele também foi embora seu principal personagem.
Um jornal foi jogado numa lixeira próxima, em sua manchete uma foto de carros sob os escombros numa enorme cratera de uma rua interditada com uma fita de cor berrante, com os seguintes escritos em sua legenda de rodapé: "transtornos provocados pela intensa onda de chuva".