sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Pá gina

Página em branco.
O que faz começar a escrita?
Qual o impulso? o pulso...
De que material o vazio é preenchido?
de tudo o que pode ser imaginado, pensado e concebido,
entendido?
ou algo que ainda se revelará,
na próxima linha, ou
na entrelinha.

Depois que começa pode continuar
fluida, ininterrupta, jorrante,
saindo pelas bordas;
mas também pode,
assim sem mais, cessar,
e assim, ser a última
palavra
da
página.
E, neste caso, a própria página.

Dom un do


Do mundo tudo se esquece
aquele que nunca viveu
Das coisas tudo se tira
e até o que se perde
no fim é acréscimo
se algo promoveu
Do mundo nada se leva
o acúmulo não serve
para o túmulo só o corpo,
pequenos objetos e algumas vestes
O fim perpétuo?
Ou o início de quê?
Depois do mundo algumas estrelas
cadeias de constelações,
planetas desconhecidos, especulações
Enormes dúvidas, poucas certezas
Nenhuma salvação para o derradeiro
E, por enquanto, eu,
pura contemplação.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

U mjog ado r

..."Sim, ás vezes, a idéia mais absurda. a mais impossível na aparência, fixa-se tão fortemente em nós que passamos a aceitá-la como algo realizável... Mais: se essa idéia se liga a um desejo intenso, apaixonado, aceitamo-la, por vezes, como algo fatal, indispensável, predestinado, como algo que não pode deixar de ser e de acontecer! É possível que haja nisso algo mais, alguma combinação de pressentimentos, algum extraordinário esforço da vontade, um envenenamento por meio da própria imaginação, ou mais ainda - não sei. Mas, nessa noite (que não esquecerei em toda a minha vida), aconteceu-me um fato milagroso. Embora ele seja confirmado plenamente pela aritmética, continuo a considerá-lo milagroso até hoje. E por que, sim, por que tal certeza estava tão profundamente, tão intensamente enraizada em mim, e de tão longa data? Certamente, eu já pensava nisso - repito-o a vocês - não como um caso que pode acontecer como outros (sendo, por conseguinte, possível também a eventualidade contrária), mas como algo que não pode em hipótese alguma deixar de acontecer!
Eis uma realidade! Eis o que pode significar, às vezes, o derradeiro florim! E o que aconteceria, se eu naquele momento tivesse perdido a confiança, se não me atrevesse a decidir-me?"...


Um jogador - Fiódor Dostoiévski

domingo, 14 de setembro de 2008

An fiar tro se

Suas articulações, momentaneamente, fizeram-se de movimentos reduzidos, uma mobilidade incompleta, o que poderia chamar-se de anfiartrose. Sentia sua circulação, cada uma das veias que trazem o sangue de todas as partes do corpo ao coração.
O quase silêncio só não era inteiro porque era cortado pelo som do galinheiro distante não mais que cem metros da janela fechada, e por isso, o cacarejar chegava mais abafado. Olhando com mais cuidado para o batente da janela, um molusco, pertencente à terceira classe do reino animal, desloca-se de forma imperceptível encerrado em sua concha. Seu faro deu o sinal, estabeleceu o indício. Um completo partista. É o que diz em pensamento. Auto-pensamento. Outro ruído deixou de não existir e, com a atenção, tornou-se ininterrupto. O relógio de parede da sala. Pensou no convencionalismo do lugar. Engrifou sua consciência, levantou-se, abriu a janela e deixou o vento protervo entrar e misturar tudo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Drum mond

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura,da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo,um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos".

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Com pac T ar

Fazia quase sempre o mesmo caminho,
uma sucessão de subidas e descidas.
Ruas largas e irregulares. Impossível de ser diferente.
Todas as possibilidades de percursos alternativos que levassem de um ponto específico a um destino preestabelecido já tinham sido esgotadas e mesmo na mais curta das opções era proporcionalmente extenuante a andança,
mas que no ponto vantajoso,
e isso apenas porque sempre é necessário encontrar o acréscimo das situações,
proporcionava uma resistência em toda sua estrutura,
compactando-o.

domingo, 27 de julho de 2008

D oce de lito

Equilibrava-se na ponta dos pés e uma pequena pontada de cãibra no meio da sola começava a exigir que voltasse à posição correta e estável de toda a sua extensão no chão, equilibrado, constante e pronto para o próximo passo.
Esforçava-se mais um pouco, era preciso ainda alguns centímetros para alcançar o objeto desejado, postado inerte em cima do armário da cozinha, e agora, era o braço que tinha que esticar-se mais, uma vez que os pés já haviam atingido a maior flexibilidade possível antes de haver algum tipo de distensão muscular. No esforço máximo dos membros superiores e inferiores a ponta do dedo médio roçou o que num pulo foi agarrado e com a falta de agilidade despencado no chão.
O pote de balas despencou para espatifar-se no chão e espalhar as pequenas guloseimas por toda a cozinha. No último quarto do corredor, onde seus pais dormiam, a luz é acesa. A criança, com o cuidado preciso de não cortar-se com os cacos do pote de vidro, apanha algumas balas e corre para seu quarto, o primeiro do corredor.
Antes de seu pai abrir a porta, a criança já está fingindo que dorme, e as provas de seu pequeno delito estão de baixo do travesseiro, produzindo a melada prova que a entregará na manhã seguinte, quando sua mãe arrumar a cama. Mas sua noite será de uma doce insônia.

Sol u cio n ar

Solução, solucionar.
Desvendado sol, desvendar.
Correr para depois parar.
Respirar.
Pirar, enlouquecer.
Esquecer de ser, não ser.
Folia, foliar.
Ficar ou ir.
Ou esperar.
Promover, para mover.
Provar.
Aprovar.
Solução, solucionar.

domingo, 6 de julho de 2008

Ai nda fa Z. . . ?

Naquela ocasião seria celebrado mais um ano que passava.
Mas para a maioria era apenas mais um dia.
Para a grande massa de gente ao redor do planeta,
compreendendo o mundo todo,
era outro dia que chegava,
para depois de vinte e quatro horas passar,
não ser mais,
só isso.
Gostava do revés,
da contra-mão,
das vias tortas,
do oposto,
do contrário,
do contra.
Contra a sua vontade,
ainda que menos que antes,
quando mais jovem,
faz coisas que seu modo de ver nega,
renega.
Mas não quer mais fazer.
Não faz?
Ainda faz.
Quer fazer?
Não.
Ainda faz...?

To dos osnom es

..."está apenas como alguém que, tendo subido a uma montanha para alcançar as paisagens de além, resiste a regressar ao vale enquanto não sentir que nos seus olhos deslumbrados já não cabem mais vastidões".
Trecho de "Todos os nomes" - José Saramago

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Sal ade e sp era

Tocava uma música facilmente classificada como de sala de espera, qualquer que fosse, de um dentista, supermercado, shopping center, boutique, e até de um médico geral, que era onde ele estava aguardando já meio sem paciência. Até gostava de salas de espera de médicos, mas como acompanhante, não como o próximo paciente, quer dizer, como o paciente número 00278, o número da senha que tem em mãos desde que entrou no hospital e apertou o botão da pequena máquina ao lado da porta de entrada, que logo após o toque emitiu alguns pequenos ruídos e por fim cuspiu o papel que leva em sua mão e que então sentado espera observando o grande painel luminoso que apita a cada número que altera. Estava marcando o número 00259 quando baixou os olhos e notou uma outra senha jogada no chão, bem próximo ao seu pé, quase em baixo do banco que estava sentado. Olhou ao redor para tentar ver de quem poderia ser aquela senha, mas após minuciosa observação pode constatar que todos que ali estavam, desde a senhora asmática que a cada cinco minutos borrifava para dentro de seu organismo através da boca uma bombinha destas de inflar o pulmão ou coisa parecida, até a mãe da pequena menina com cara de doente, quieta no colo, choramingando, todos pareciam aguardar a sua vez e tinham em mãos, cada um o seu papel de senha. Fingindo amarrar os sapatos, desviou o braço e discretamente pegou a senha jogada. Assim que conseguiu virá-la, ainda curvado leu seus números, 00260 era o número. Pensou rapidamente no que fazer quando o aviso sonoro anunciou o próximo número, exatamente o 00260. Nada fez até o segundo aviso sonoro. As pessoas começaram o olhar umas para as outras, todos liam e reliam suas senhas. No terceiro e último aviso sonoro ele juntou as duas senhas que tinha em suas mãos, discretamente jogou-as onde antes uma apenas havia, fingiu terminar de arrumar o sapato, levantou-se e quando o painel anunciava o número 00261 já estava na porta do hospital. Assim que a senhora asmática entrava para sua consulta ele já estava fora do hospital.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Op ró x imo

Ocorreu-lhe de súbito que ele seria o próximo. Não por nenhum aviso nem por qualquer outra coisa de ordem intuitiva, nem tão pouco de cunho sobrenatural. E este acontecimento, na superfície, tirou sua ordem já abalada, nas profundezas, de natureza confusa, induziu um pequeno movimento corporal e ele saiu a andar.
O previsão do tempo era de chuva intensa, destes dias que a vontade parece padecer e por pura preguiça acaba cedendo à sonolência, mas nem uma gota até aquele momento havia caído do céu, mesmo com as nuvens, do ponto de vista do chão, estando visivelmente transbordantes, saturadas.
Entrou na pequena casa lotérica à três quadras de sua residência, pegou o pequeno papel de apostas, preencheu seus campos, anotou os seis números que durante todo o caminho memorizou, postou-se no último lugar da fila mediana que se formara, esperou sua vez por alguns minutos, pagou com moedas a mulher do guichê e com o comprovante saiu fazendo o mesmo caminho até sua casa.
Na manhã seguinte, esta sim de intensa chuva, contrariando mais uma vez as previsões que diziam ser uma manhã apenas nublada, saiu com destino ao destino de sua sorte. Com o pequeno papel na mão, contrariando sua própria certeza, conferiu que se quer um número ele havia acertado. Amassou o papel, jogou no lixo, e debaixo de chuva voltou para sua casa.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

D ese ugos to?

O seu mundo é idílico.
Uma mistura umas vezes clara e outras nem tanto.
E só depois que se vive a tragédia é que se pode rir.
Das coisas, das pessoas, de si próprio.
O peso é seu alento
e quando visto
seu alimento.
Seu sabor por vezes salgado
deixa-o sedento.
Sentimento agridoce
conduzindo seu tempero.
De seu gosto?

segunda-feira, 19 de maio de 2008

aoq uev Ê

aberta
na certa
direta
concreta
desperta
atenção
ao que vê
duela
mazela
tigela
caverna
moderna
atenção
ao que vê
disputa
conduta
façanha
barganha
tamanha
atenção
ao que vê

domingo, 4 de maio de 2008

Es pat i fado

O telefone tocou a primeira vez sem que ele se quer movesse um músculo, nada, nem um dedo. No segundo toque foi o seu pensamento que esboçou uma primeira reação, uma leve sensação de desgosto, de irritação. O terceiro toque dava sinais que uma explosão se daria, se não externa, com toda a certeza de cunho interno, pessoal, íntimo. Mas antes do quarto toque seu pensamento irrompeu sem disfarce. Era a irritação que chegara, límpida, transfigurada na certeza de que não queria atender ao aparelho telefônico e não iria mesmo.
O quarto e o quinto toque se deram e dentro dele, ainda deitado e sem mover nenhuma minúscula parte do corpo, era como se a persistente pessoa que discara os números estivesse a ligar todo um dia, um dia inteiro, sem interrupção, já era essa a sua sensação. Estava de olhos fechados quando os toques começaram, mas no sexto toque fez força e fechou os olhos por dentro, ao avesso, o mesmo que fez com os ouvidos, como se os tímpanos se comprimissem até causar uma surdez profunda, sem começo nem fim. Tal movimento parece ter dado resultado pois não ouviu nem o sétimo, nem o oitavo, nem mais nenhum toque. Ao acordar na manhã seguinte não se lembrava de o telefone ter tocado e surpreso viu o aparelho espatifado num canto do quarto.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Pan flet á rio

O panfleto de propaganda mede não mais que o tamanho de uma página de revista. Ilustrado, traz fotos com os produtos em promoção na semana. Em baixo de cada foto a descrição da mercadoria, seu preço riscado com um grande X vermelho, ao lado outro número bem maior com o preço já descontado o valor da promoção; um terceiro número ainda em maior evidência, em vermelho, circulado duas vezes, calcula a economia que o freguês pode ter caso compre estes produtos nesta determinada loja - ainda por cima com a comodidade de aceitar todos os cartões de crédito ou mesmo a compra em dois cliques pela internet, a entrega é feita no mesmo dia. Este é o próximo setor que atuará o menino na evolução da empresa, prometida pelo próprio diretor do mercadinho webzado. Entregará os pedidos feitos via grande rede, não mais andando, mas de bicicleta - e olha que cedida pelo mercadinho - pensa enquanto anda, e quanto mais anda quase chega a falar em voz alta; para ele mesmo.
No panfleto, o que mais chama a atenção deste menino, que segura centenas de cópias, ainda quentes, diretamente da gráfica, algumas em sua mão, a maioria na bolsa de abertura única que carrega pela alça , é um aviso no fim da propaganda; o departamento financeiro da empresa garante que se o consumidor encontrar na concorrência o mesmo produto mais barato, paga não uma, mas uma dúzia de vezes o valor da mercadoria, em dinheiro, no ato, é só trazer a nota fiscal do produto comprado na concorrência.
O trabalho do menino é levar o panfleto de casa em casa, num enquadramento de dez quarteirões, compreendendo desde a rua Clemente Pereira até a rua Lord Cockrane entre a Cipriano Barata e a Lino Coutinho, depositando-os nas caixas de correio; no caso de prédios entregar diretamente ao porteiro na quantidade de apartamentos, o que acha bom, pois é nos edifícios que consegue de uma só vez livrar-se de vários exemplares, abreviando o tempo de andança pelas ruas; o trato feito com o gerente, verbalmente mesmo , é que assim que se acabam as cópias o menino está dispensado e pode fazer o que quiser, jogar bola, ir pra casa, ver os amigos, e ultimamente pensar em Marlene.
Ganha trinta reais por semana, trabalhando de terça à sexta-feira, também o dia que recebe, às vezes aos sábados, mas aí é valor dobrado - fim de semana é sagrado - imita a voz e o modo de falar do dono do mercadinho. Como hoje ainda é terça-feira teria ainda muitas casas e edifícios para depositar a semente do alvoroço que causa um "cinquenta por cento de desconto" em senhoras, senhores, donas de casa, homens comuns de bairros tradicionais, mulheres tradicionais de bairros comuns.
Sua tia estudou no colégio Maria Imaculada e é amicíssima da mulher do dono da venda. Em ascensão financeira desde os anos 1980 e devido a ajuda do filho(hoje gerente) depois que formou-se Administrador de Empresas pela Universidade São Marcos no fim da década, a venda transformou-se em mercado de fato, tanto no que diz respeito à variedade e conservação dos alimentos como no espaço físico informatizado, limpo e claro, muito diferente do conservadorismo comercial reinante no bairro da Proclamação da República em que muito ainda conserva o mesmo cheiro de mofo, de umidade exposta, de tradição ultrapassada, ineficaz. Celina chama-se a tia. Celina arrumou o trabalho para o menino. E quase dois meses se passaram desde então. A história de Celina é somente esta. Muito diferente em importância da história de Marlene, como veremos em seguida.
Pois como o menino anda a todo este tempo por tanto tempo, desenvolveu alguns atos repetitivos, pequenos rituais, vícios inofencívos, como pegar sempre um bocado de panfletos dentro da bolsa com a mão esquerda e com a direita pegar a unidade superior do monte apenas quando está bem próximo à caixa de correio - para dinamizar a operação - costuma dizer para os outros meninos antes de cada um sair para suas ruas; outro é não desperdiçar o material ilustrativo não sendo raro vê-lo pegando uma pilha de propagandas jogadas em algum lixo por outro "menino panfletário" mais preguiçoso e oportunista e juntar ao seu monte para distribuir. Não por simples questão de princípios, mas porque assim, pode entregar em outras ruas , mais precisamente a rua Moreira e Costa onde mora Marlene e por sorte pode encontrá-la, e com mais sorte ainda encontrá-la sem as suas irritantes amigas, o que só aconteceu uma vez. E foi nesta vez que ele descobriu que ela era uma chocólatra convicta -não dispenso nem chocolates da Diziolli que é muito oleoso, agora se for Lindt, delicioso, simplesmente eu derreto - Falava tentando lembrar da voz doce da menina, e ele mesmo quase derretendo.
A mania mais interessante que desenvolveu foi entrar metodicamente em todos os pseudo-mercados, mercadinhos caindo aos pedaços, marcadolas, vendinhas e até chegar a pegar um ônibus até a Vila Mariana e percorrer os mercados, grandes mercados, hipermercados que encontra pela rua Vergueiro e a Domingos de Moraes. Vai direto nos produtos que estão na promoção da semana. Compara preço por preço e em nenhuma vez encontrou algum mais barato para poder receber doze vezes o mesmo valor, o que lhe deixa orgulhoso de saber que tem crédito o lugar onde trabalha, mas também deixa uma ponta de curiosidade, pois o que faria se encontrasse algo mais em conta? pediria a recompensa para o seu próprio chefe? Seria um atestado de infidelidade trabalhista, comprar na concorrência?
As semanas foram passando e vez ou outra cruzava rapidamente com Marlene pela rua, outras arranjava estes pequenos encontros, estando exatamente na mesma hora em que ela passava por algum lugar - coincidência te encontrar - diz sempre que isso acontece. O fato é que as coincidências começaram a ocorrer com tanta frequência que já deixara de ser coincidência e com o tempo ele foi ficando mais tranquilo na sua presença. Tão tranquilo que um dia, despretensiosamente, acabou convidando a menina para ir ao cinema; tranquilamente também foi aceito o convite. Marcado para o fim da semana, sexta-feira, dia que receberia seu salário semanal.
O dia do encontro demorou a chegar. As horas passavam arrastadas e ele fazia questão de demorar cada vez mais nas suas comparações de preços pelo bairro e fora dele.
O dia chegou. Sexta-feira. E já pela manhã tem uma grande surpresa. É que uma promoção eventual de fim de semana mostra uma caixa de chocolates Lindt Grande de diversos sabores com um preço que ele tinha certeza ter visto num hipermercado na Vila Mariana mais barato, questão de centavos, pois era quase o valor total do que recebia na semana.. Tinha certeza porque se especializara em preços de chocolate, especialmente Lindt.
O fim de tudo foi que o menino foi demitido logo após exigir seu prêmio para o dono do mercadinho. Com a "bolada" que ganhou ficou semanas sem trabalhar e começou a namorar Marlene.




quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ate n çã o

"E um pássaro mainá grita:

ATENÇÃO" !


A ilha - A. Huxley

terça-feira, 1 de abril de 2008

o q ue é qu ê

"Ninguém precisa ir a parte alguma. Como seria bom que todos solbessem disso!

Se apenas solbesse quem realmente sou, deixaria de proceder como penso que sou. E se parasse de me comportar como penso ser, saberia quem sou.

O sim e o não viveriam reconciliados na abençoada aceitação da experiência de Ser Único. A aspiração de todas as religiões de eternizar somente o "sim" em cada par de opostos é irrealizável porque contraria a natureza das coisas.

Conflitos e frustrações - tema de toda história e de quase toda biografia.

"Eu lhes mostro o sofrimento", disse Buda, realisticamente. Porém ele também mostrou o fim do sofrimento - o autoconhecimento, a aceitação total e a abençoada experiência de Ser Único.

O perfeito autoconhecimento gera o Bom Ser, e os Bons Seres realizam uma melhor espécie de Bem. Mas as coisas bem feitas não produzem automaticamente o Bom Ser. Podemos ser virtuosos sem que saibamos quem realmente somos. Os indivíduos apenas bons não são necessariamente Bons Seres; são simples pilares da sociedade.

O verdadeiro conhecimento de quem realmente somos é que nos faz Bons; para sabermos quem realmente somos devemos conhecer nos mínimos detalhes aquilo que pensamos ser.
Se renovarmos esses momentos de autoconhecimento do que não somos, fazendo com que se tornem contínuos, poderemos vir a descobrir subitamente aquilo que realmente somos.
Mas o Bom Ser cenhece sua verdadeira posição em relação a todas as experiências e, desse modo, está em permanente estado de alerta. Está alerta ao que se possa crer, não crer, às coisas agradáveis e às desagradáveis, e essa vigilância não deve cessar, mesmo quando está imerso nos trabalhos e nos sofrimentos.

O "eu" que penso ser e o "eu" que realmente sou! Em outros termos, o sofrimento e o fim do sofrimento. Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de liberação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são "confeccionados em casa" e o universo os considera inteiramente supérfluos.

O patriotismo, a ciência, a religião, a arte, a política, a economia, o dever, a ação desinteressada e mesmo a contemplação (embora sublime), isoladamente não são suficientes. Nada é suficiente desde que o Todo seja deficiente".




Notas sobre o que é quê e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso

A ILHA - Aldous Huxley

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

em retr os pec tiv a

Enquanto procura tenta lembrar-se de algum detalhe, algo que facilite a busca. Nestas circunstâncias qualquer coisa o deixará feliz...
... ou não.
O melhor no caso em que encontra-se é parar e tentar relembrar os acontecimentos ao inverso; deste exato momento, pensando no que fez axatamente agora, até o que desencadeou sua última ação, e mais anteriormente, e mais anteriormente ainda, e como cada acontecimento gerou sua respectiva ação, e como outra ação foi gerada desta ação, até chegar ao que realmente procura.
Buscava o precursor dos acontecimentos.
Foi aí que começou a achar coisas que não procurava, coisas desconhecidas, coisas esquecidas. Uma volta completa se deu em seu pensamento, e agora, voltava para o mesmo ponto de onde começara a procura.
A busca está terminada.