sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Pá gina
O que faz começar a escrita?
Qual o impulso? o pulso...
De que material o vazio é preenchido?
de tudo o que pode ser imaginado, pensado e concebido,
entendido?
ou algo que ainda se revelará,
na próxima linha, ou
na entrelinha.
Depois que começa pode continuar
fluida, ininterrupta, jorrante,
saindo pelas bordas;
mas também pode,
assim sem mais, cessar,
e assim, ser a última
palavra
da
página.
E, neste caso, a própria página.
Dom un do
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
U mjog ado r
Eis uma realidade! Eis o que pode significar, às vezes, o derradeiro florim! E o que aconteceria, se eu naquele momento tivesse perdido a confiança, se não me atrevesse a decidir-me?"...
Um jogador - Fiódor Dostoiévski
domingo, 14 de setembro de 2008
An fiar tro se
Suas articulações, momentaneamente, fizeram-se de movimentos reduzidos, uma mobilidade incompleta, o que poderia chamar-se de anfiartrose. Sentia sua circulação, cada uma das veias que trazem o sangue de todas as partes do corpo ao coração.
O quase silêncio só não era inteiro porque era cortado pelo som do galinheiro distante não mais que cem metros da janela fechada, e por isso, o cacarejar chegava mais abafado. Olhando com mais cuidado para o batente da janela, um molusco, pertencente à terceira classe do reino animal, desloca-se de forma imperceptível encerrado em sua concha. Seu faro deu o sinal, estabeleceu o indício. Um completo partista. É o que diz em pensamento. Auto-pensamento. Outro ruído deixou de não existir e, com a atenção, tornou-se ininterrupto. O relógio de parede da sala. Pensou no convencionalismo do lugar. Engrifou sua consciência, levantou-se, abriu a janela e deixou o vento protervo entrar e misturar tudo.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Drum mond
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Com pac T ar
uma sucessão de subidas e descidas.
Ruas largas e irregulares. Impossível de ser diferente.
Todas as possibilidades de percursos alternativos que levassem de um ponto específico a um destino preestabelecido já tinham sido esgotadas e mesmo na mais curta das opções era proporcionalmente extenuante a andança,
mas que no ponto vantajoso,
e isso apenas porque sempre é necessário encontrar o acréscimo das situações,
proporcionava uma resistência em toda sua estrutura,
compactando-o.
domingo, 27 de julho de 2008
D oce de lito
Esforçava-se mais um pouco, era preciso ainda alguns centímetros para alcançar o objeto desejado, postado inerte em cima do armário da cozinha, e agora, era o braço que tinha que esticar-se mais, uma vez que os pés já haviam atingido a maior flexibilidade possível antes de haver algum tipo de distensão muscular. No esforço máximo dos membros superiores e inferiores a ponta do dedo médio roçou o que num pulo foi agarrado e com a falta de agilidade despencado no chão.
O pote de balas despencou para espatifar-se no chão e espalhar as pequenas guloseimas por toda a cozinha. No último quarto do corredor, onde seus pais dormiam, a luz é acesa. A criança, com o cuidado preciso de não cortar-se com os cacos do pote de vidro, apanha algumas balas e corre para seu quarto, o primeiro do corredor.
Antes de seu pai abrir a porta, a criança já está fingindo que dorme, e as provas de seu pequeno delito estão de baixo do travesseiro, produzindo a melada prova que a entregará na manhã seguinte, quando sua mãe arrumar a cama. Mas sua noite será de uma doce insônia.
Sol u cio n ar
domingo, 6 de julho de 2008
Ai nda fa Z. . . ?
To dos osnom es
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Sal ade e sp era
terça-feira, 3 de junho de 2008
Op ró x imo
O previsão do tempo era de chuva intensa, destes dias que a vontade parece padecer e por pura preguiça acaba cedendo à sonolência, mas nem uma gota até aquele momento havia caído do céu, mesmo com as nuvens, do ponto de vista do chão, estando visivelmente transbordantes, saturadas.
Entrou na pequena casa lotérica à três quadras de sua residência, pegou o pequeno papel de apostas, preencheu seus campos, anotou os seis números que durante todo o caminho memorizou, postou-se no último lugar da fila mediana que se formara, esperou sua vez por alguns minutos, pagou com moedas a mulher do guichê e com o comprovante saiu fazendo o mesmo caminho até sua casa.
Na manhã seguinte, esta sim de intensa chuva, contrariando mais uma vez as previsões que diziam ser uma manhã apenas nublada, saiu com destino ao destino de sua sorte. Com o pequeno papel na mão, contrariando sua própria certeza, conferiu que se quer um número ele havia acertado. Amassou o papel, jogou no lixo, e debaixo de chuva voltou para sua casa.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
D ese ugos to?
segunda-feira, 19 de maio de 2008
aoq uev Ê
domingo, 4 de maio de 2008
Es pat i fado
O quarto e o quinto toque se deram e dentro dele, ainda deitado e sem mover nenhuma minúscula parte do corpo, era como se a persistente pessoa que discara os números estivesse a ligar todo um dia, um dia inteiro, sem interrupção, já era essa a sua sensação. Estava de olhos fechados quando os toques começaram, mas no sexto toque fez força e fechou os olhos por dentro, ao avesso, o mesmo que fez com os ouvidos, como se os tímpanos se comprimissem até causar uma surdez profunda, sem começo nem fim. Tal movimento parece ter dado resultado pois não ouviu nem o sétimo, nem o oitavo, nem mais nenhum toque. Ao acordar na manhã seguinte não se lembrava de o telefone ter tocado e surpreso viu o aparelho espatifado num canto do quarto.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Pan flet á rio
No panfleto, o que mais chama a atenção deste menino, que segura centenas de cópias, ainda quentes, diretamente da gráfica, algumas em sua mão, a maioria na bolsa de abertura única que carrega pela alça , é um aviso no fim da propaganda; o departamento financeiro da empresa garante que se o consumidor encontrar na concorrência o mesmo produto mais barato, paga não uma, mas uma dúzia de vezes o valor da mercadoria, em dinheiro, no ato, é só trazer a nota fiscal do produto comprado na concorrência.
O trabalho do menino é levar o panfleto de casa em casa, num enquadramento de dez quarteirões, compreendendo desde a rua Clemente Pereira até a rua Lord Cockrane entre a Cipriano Barata e a Lino Coutinho, depositando-os nas caixas de correio; no caso de prédios entregar diretamente ao porteiro na quantidade de apartamentos, o que acha bom, pois é nos edifícios que consegue de uma só vez livrar-se de vários exemplares, abreviando o tempo de andança pelas ruas; o trato feito com o gerente, verbalmente mesmo , é que assim que se acabam as cópias o menino está dispensado e pode fazer o que quiser, jogar bola, ir pra casa, ver os amigos, e ultimamente pensar em Marlene.
Ganha trinta reais por semana, trabalhando de terça à sexta-feira, também o dia que recebe, às vezes aos sábados, mas aí é valor dobrado - fim de semana é sagrado - imita a voz e o modo de falar do dono do mercadinho. Como hoje ainda é terça-feira teria ainda muitas casas e edifícios para depositar a semente do alvoroço que causa um "cinquenta por cento de desconto" em senhoras, senhores, donas de casa, homens comuns de bairros tradicionais, mulheres tradicionais de bairros comuns.
Sua tia estudou no colégio Maria Imaculada e é amicíssima da mulher do dono da venda. Em ascensão financeira desde os anos 1980 e devido a ajuda do filho(hoje gerente) depois que formou-se Administrador de Empresas pela Universidade São Marcos no fim da década, a venda transformou-se em mercado de fato, tanto no que diz respeito à variedade e conservação dos alimentos como no espaço físico informatizado, limpo e claro, muito diferente do conservadorismo comercial reinante no bairro da Proclamação da República em que muito ainda conserva o mesmo cheiro de mofo, de umidade exposta, de tradição ultrapassada, ineficaz. Celina chama-se a tia. Celina arrumou o trabalho para o menino. E quase dois meses se passaram desde então. A história de Celina é somente esta. Muito diferente em importância da história de Marlene, como veremos em seguida.
Pois como o menino anda a todo este tempo por tanto tempo, desenvolveu alguns atos repetitivos, pequenos rituais, vícios inofencívos, como pegar sempre um bocado de panfletos dentro da bolsa com a mão esquerda e com a direita pegar a unidade superior do monte apenas quando está bem próximo à caixa de correio - para dinamizar a operação - costuma dizer para os outros meninos antes de cada um sair para suas ruas; outro é não desperdiçar o material ilustrativo não sendo raro vê-lo pegando uma pilha de propagandas jogadas em algum lixo por outro "menino panfletário" mais preguiçoso e oportunista e juntar ao seu monte para distribuir. Não por simples questão de princípios, mas porque assim, pode entregar em outras ruas , mais precisamente a rua Moreira e Costa onde mora Marlene e por sorte pode encontrá-la, e com mais sorte ainda encontrá-la sem as suas irritantes amigas, o que só aconteceu uma vez. E foi nesta vez que ele descobriu que ela era uma chocólatra convicta -não dispenso nem chocolates da Diziolli que é muito oleoso, agora se for Lindt, delicioso, simplesmente eu derreto - Falava tentando lembrar da voz doce da menina, e ele mesmo quase derretendo.
A mania mais interessante que desenvolveu foi entrar metodicamente em todos os pseudo-mercados, mercadinhos caindo aos pedaços, marcadolas, vendinhas e até chegar a pegar um ônibus até a Vila Mariana e percorrer os mercados, grandes mercados, hipermercados que encontra pela rua Vergueiro e a Domingos de Moraes. Vai direto nos produtos que estão na promoção da semana. Compara preço por preço e em nenhuma vez encontrou algum mais barato para poder receber doze vezes o mesmo valor, o que lhe deixa orgulhoso de saber que tem crédito o lugar onde trabalha, mas também deixa uma ponta de curiosidade, pois o que faria se encontrasse algo mais em conta? pediria a recompensa para o seu próprio chefe? Seria um atestado de infidelidade trabalhista, comprar na concorrência?
As semanas foram passando e vez ou outra cruzava rapidamente com Marlene pela rua, outras arranjava estes pequenos encontros, estando exatamente na mesma hora em que ela passava por algum lugar - coincidência te encontrar - diz sempre que isso acontece. O fato é que as coincidências começaram a ocorrer com tanta frequência que já deixara de ser coincidência e com o tempo ele foi ficando mais tranquilo na sua presença. Tão tranquilo que um dia, despretensiosamente, acabou convidando a menina para ir ao cinema; tranquilamente também foi aceito o convite. Marcado para o fim da semana, sexta-feira, dia que receberia seu salário semanal.
O dia do encontro demorou a chegar. As horas passavam arrastadas e ele fazia questão de demorar cada vez mais nas suas comparações de preços pelo bairro e fora dele.
O dia chegou. Sexta-feira. E já pela manhã tem uma grande surpresa. É que uma promoção eventual de fim de semana mostra uma caixa de chocolates Lindt Grande de diversos sabores com um preço que ele tinha certeza ter visto num hipermercado na Vila Mariana mais barato, questão de centavos, pois era quase o valor total do que recebia na semana.. Tinha certeza porque se especializara em preços de chocolate, especialmente Lindt.
O fim de tudo foi que o menino foi demitido logo após exigir seu prêmio para o dono do mercadinho. Com a "bolada" que ganhou ficou semanas sem trabalhar e começou a namorar Marlene.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
o q ue é qu ê
Se apenas solbesse quem realmente sou, deixaria de proceder como penso que sou. E se parasse de me comportar como penso ser, saberia quem sou.
O sim e o não viveriam reconciliados na abençoada aceitação da experiência de Ser Único. A aspiração de todas as religiões de eternizar somente o "sim" em cada par de opostos é irrealizável porque contraria a natureza das coisas.
Conflitos e frustrações - tema de toda história e de quase toda biografia.
"Eu lhes mostro o sofrimento", disse Buda, realisticamente. Porém ele também mostrou o fim do sofrimento - o autoconhecimento, a aceitação total e a abençoada experiência de Ser Único.
O perfeito autoconhecimento gera o Bom Ser, e os Bons Seres realizam uma melhor espécie de Bem. Mas as coisas bem feitas não produzem automaticamente o Bom Ser. Podemos ser virtuosos sem que saibamos quem realmente somos. Os indivíduos apenas bons não são necessariamente Bons Seres; são simples pilares da sociedade.
O verdadeiro conhecimento de quem realmente somos é que nos faz Bons; para sabermos quem realmente somos devemos conhecer nos mínimos detalhes aquilo que pensamos ser.
Se renovarmos esses momentos de autoconhecimento do que não somos, fazendo com que se tornem contínuos, poderemos vir a descobrir subitamente aquilo que realmente somos.
Mas o Bom Ser cenhece sua verdadeira posição em relação a todas as experiências e, desse modo, está em permanente estado de alerta. Está alerta ao que se possa crer, não crer, às coisas agradáveis e às desagradáveis, e essa vigilância não deve cessar, mesmo quando está imerso nos trabalhos e nos sofrimentos.
O "eu" que penso ser e o "eu" que realmente sou! Em outros termos, o sofrimento e o fim do sofrimento. Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de liberação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são "confeccionados em casa" e o universo os considera inteiramente supérfluos.
O patriotismo, a ciência, a religião, a arte, a política, a economia, o dever, a ação desinteressada e mesmo a contemplação (embora sublime), isoladamente não são suficientes. Nada é suficiente desde que o Todo seja deficiente".
Notas sobre o que é quê e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso
A ILHA - Aldous Huxley