quinta-feira, 19 de junho de 2008

Sal ade e sp era

Tocava uma música facilmente classificada como de sala de espera, qualquer que fosse, de um dentista, supermercado, shopping center, boutique, e até de um médico geral, que era onde ele estava aguardando já meio sem paciência. Até gostava de salas de espera de médicos, mas como acompanhante, não como o próximo paciente, quer dizer, como o paciente número 00278, o número da senha que tem em mãos desde que entrou no hospital e apertou o botão da pequena máquina ao lado da porta de entrada, que logo após o toque emitiu alguns pequenos ruídos e por fim cuspiu o papel que leva em sua mão e que então sentado espera observando o grande painel luminoso que apita a cada número que altera. Estava marcando o número 00259 quando baixou os olhos e notou uma outra senha jogada no chão, bem próximo ao seu pé, quase em baixo do banco que estava sentado. Olhou ao redor para tentar ver de quem poderia ser aquela senha, mas após minuciosa observação pode constatar que todos que ali estavam, desde a senhora asmática que a cada cinco minutos borrifava para dentro de seu organismo através da boca uma bombinha destas de inflar o pulmão ou coisa parecida, até a mãe da pequena menina com cara de doente, quieta no colo, choramingando, todos pareciam aguardar a sua vez e tinham em mãos, cada um o seu papel de senha. Fingindo amarrar os sapatos, desviou o braço e discretamente pegou a senha jogada. Assim que conseguiu virá-la, ainda curvado leu seus números, 00260 era o número. Pensou rapidamente no que fazer quando o aviso sonoro anunciou o próximo número, exatamente o 00260. Nada fez até o segundo aviso sonoro. As pessoas começaram o olhar umas para as outras, todos liam e reliam suas senhas. No terceiro e último aviso sonoro ele juntou as duas senhas que tinha em suas mãos, discretamente jogou-as onde antes uma apenas havia, fingiu terminar de arrumar o sapato, levantou-se e quando o painel anunciava o número 00261 já estava na porta do hospital. Assim que a senhora asmática entrava para sua consulta ele já estava fora do hospital.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Op ró x imo

Ocorreu-lhe de súbito que ele seria o próximo. Não por nenhum aviso nem por qualquer outra coisa de ordem intuitiva, nem tão pouco de cunho sobrenatural. E este acontecimento, na superfície, tirou sua ordem já abalada, nas profundezas, de natureza confusa, induziu um pequeno movimento corporal e ele saiu a andar.
O previsão do tempo era de chuva intensa, destes dias que a vontade parece padecer e por pura preguiça acaba cedendo à sonolência, mas nem uma gota até aquele momento havia caído do céu, mesmo com as nuvens, do ponto de vista do chão, estando visivelmente transbordantes, saturadas.
Entrou na pequena casa lotérica à três quadras de sua residência, pegou o pequeno papel de apostas, preencheu seus campos, anotou os seis números que durante todo o caminho memorizou, postou-se no último lugar da fila mediana que se formara, esperou sua vez por alguns minutos, pagou com moedas a mulher do guichê e com o comprovante saiu fazendo o mesmo caminho até sua casa.
Na manhã seguinte, esta sim de intensa chuva, contrariando mais uma vez as previsões que diziam ser uma manhã apenas nublada, saiu com destino ao destino de sua sorte. Com o pequeno papel na mão, contrariando sua própria certeza, conferiu que se quer um número ele havia acertado. Amassou o papel, jogou no lixo, e debaixo de chuva voltou para sua casa.