O panfleto de propaganda mede não mais que o tamanho de uma página de revista. Ilustrado, traz fotos com os produtos em promoção na semana. Em baixo de cada foto a descrição da mercadoria, seu preço riscado com um grande X vermelho, ao lado outro número bem maior com o preço já descontado o valor da promoção; um terceiro número ainda em maior evidência, em vermelho, circulado duas vezes, calcula a economia que o freguês pode ter caso compre estes produtos nesta determinada loja - ainda por cima com a comodidade de aceitar todos os cartões de crédito ou mesmo a compra em dois cliques pela internet, a entrega é feita no mesmo dia. Este é o próximo setor que atuará o menino na evolução da empresa, prometida pelo próprio diretor do mercadinho webzado. Entregará os pedidos feitos via grande rede, não mais andando, mas de bicicleta - e olha que cedida pelo mercadinho - pensa enquanto anda, e quanto mais anda quase chega a falar em voz alta; para ele mesmo.
No panfleto, o que mais chama a atenção deste menino, que segura centenas de cópias, ainda quentes, diretamente da gráfica, algumas em sua mão, a maioria na bolsa de abertura única que carrega pela alça , é um aviso no fim da propaganda; o departamento financeiro da empresa garante que se o consumidor encontrar na concorrência o mesmo produto mais barato, paga não uma, mas uma dúzia de vezes o valor da mercadoria, em dinheiro, no ato, é só trazer a nota fiscal do produto comprado na concorrência.
O trabalho do menino é levar o panfleto de casa em casa, num enquadramento de dez quarteirões, compreendendo desde a rua Clemente Pereira até a rua Lord Cockrane entre a Cipriano Barata e a Lino Coutinho, depositando-os nas caixas de correio; no caso de prédios entregar diretamente ao porteiro na quantidade de apartamentos, o que acha bom, pois é nos edifícios que consegue de uma só vez livrar-se de vários exemplares, abreviando o tempo de andança pelas ruas; o trato feito com o gerente, verbalmente mesmo , é que assim que se acabam as cópias o menino está dispensado e pode fazer o que quiser, jogar bola, ir pra casa, ver os amigos, e ultimamente pensar em Marlene.
Ganha trinta reais por semana, trabalhando de terça à sexta-feira, também o dia que recebe, às vezes aos sábados, mas aí é valor dobrado - fim de semana é sagrado - imita a voz e o modo de falar do dono do mercadinho. Como hoje ainda é terça-feira teria ainda muitas casas e edifícios para depositar a semente do alvoroço que causa um "cinquenta por cento de desconto" em senhoras, senhores, donas de casa, homens comuns de bairros tradicionais, mulheres tradicionais de bairros comuns.
Sua tia estudou no colégio Maria Imaculada e é amicíssima da mulher do dono da venda. Em ascensão financeira desde os anos 1980 e devido a ajuda do filho(hoje gerente) depois que formou-se Administrador de Empresas pela Universidade São Marcos no fim da década, a venda transformou-se em mercado de fato, tanto no que diz respeito à variedade e conservação dos alimentos como no espaço físico informatizado, limpo e claro, muito diferente do conservadorismo comercial reinante no bairro da Proclamação da República em que muito ainda conserva o mesmo cheiro de mofo, de umidade exposta, de tradição ultrapassada, ineficaz. Celina chama-se a tia. Celina arrumou o trabalho para o menino. E quase dois meses se passaram desde então. A história de Celina é somente esta. Muito diferente em importância da história de Marlene, como veremos em seguida.
Pois como o menino anda a todo este tempo por tanto tempo, desenvolveu alguns atos repetitivos, pequenos rituais, vícios inofencívos, como pegar sempre um bocado de panfletos dentro da bolsa com a mão esquerda e com a direita pegar a unidade superior do monte apenas quando está bem próximo à caixa de correio - para dinamizar a operação - costuma dizer para os outros meninos antes de cada um sair para suas ruas; outro é não desperdiçar o material ilustrativo não sendo raro vê-lo pegando uma pilha de propagandas jogadas em algum lixo por outro "menino panfletário" mais preguiçoso e oportunista e juntar ao seu monte para distribuir. Não por simples questão de princípios, mas porque assim, pode entregar em outras ruas , mais precisamente a rua Moreira e Costa onde mora Marlene e por sorte pode encontrá-la, e com mais sorte ainda encontrá-la sem as suas irritantes amigas, o que só aconteceu uma vez. E foi nesta vez que ele descobriu que ela era uma chocólatra convicta -não dispenso nem chocolates da Diziolli que é muito oleoso, agora se for Lindt, delicioso, simplesmente eu derreto - Falava tentando lembrar da voz doce da menina, e ele mesmo quase derretendo.
A mania mais interessante que desenvolveu foi entrar metodicamente em todos os pseudo-mercados, mercadinhos caindo aos pedaços, marcadolas, vendinhas e até chegar a pegar um ônibus até a Vila Mariana e percorrer os mercados, grandes mercados, hipermercados que encontra pela rua Vergueiro e a Domingos de Moraes. Vai direto nos produtos que estão na promoção da semana. Compara preço por preço e em nenhuma vez encontrou algum mais barato para poder receber doze vezes o mesmo valor, o que lhe deixa orgulhoso de saber que tem crédito o lugar onde trabalha, mas também deixa uma ponta de curiosidade, pois o que faria se encontrasse algo mais em conta? pediria a recompensa para o seu próprio chefe? Seria um atestado de infidelidade trabalhista, comprar na concorrência?
As semanas foram passando e vez ou outra cruzava rapidamente com Marlene pela rua, outras arranjava estes pequenos encontros, estando exatamente na mesma hora em que ela passava por algum lugar - coincidência te encontrar - diz sempre que isso acontece. O fato é que as coincidências começaram a ocorrer com tanta frequência que já deixara de ser coincidência e com o tempo ele foi ficando mais tranquilo na sua presença. Tão tranquilo que um dia, despretensiosamente, acabou convidando a menina para ir ao cinema; tranquilamente também foi aceito o convite. Marcado para o fim da semana, sexta-feira, dia que receberia seu salário semanal.
O dia do encontro demorou a chegar. As horas passavam arrastadas e ele fazia questão de demorar cada vez mais nas suas comparações de preços pelo bairro e fora dele.
O dia chegou. Sexta-feira. E já pela manhã tem uma grande surpresa. É que uma promoção eventual de fim de semana mostra uma caixa de chocolates Lindt Grande de diversos sabores com um preço que ele tinha certeza ter visto num hipermercado na Vila Mariana mais barato, questão de centavos, pois era quase o valor total do que recebia na semana.. Tinha certeza porque se especializara em preços de chocolate, especialmente Lindt.
O fim de tudo foi que o menino foi demitido logo após exigir seu prêmio para o dono do mercadinho. Com a "bolada" que ganhou ficou semanas sem trabalhar e começou a namorar Marlene.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
quinta-feira, 3 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
o q ue é qu ê
"Ninguém precisa ir a parte alguma. Como seria bom que todos solbessem disso!
Se apenas solbesse quem realmente sou, deixaria de proceder como penso que sou. E se parasse de me comportar como penso ser, saberia quem sou.
O sim e o não viveriam reconciliados na abençoada aceitação da experiência de Ser Único. A aspiração de todas as religiões de eternizar somente o "sim" em cada par de opostos é irrealizável porque contraria a natureza das coisas.
Conflitos e frustrações - tema de toda história e de quase toda biografia.
"Eu lhes mostro o sofrimento", disse Buda, realisticamente. Porém ele também mostrou o fim do sofrimento - o autoconhecimento, a aceitação total e a abençoada experiência de Ser Único.
O perfeito autoconhecimento gera o Bom Ser, e os Bons Seres realizam uma melhor espécie de Bem. Mas as coisas bem feitas não produzem automaticamente o Bom Ser. Podemos ser virtuosos sem que saibamos quem realmente somos. Os indivíduos apenas bons não são necessariamente Bons Seres; são simples pilares da sociedade.
O verdadeiro conhecimento de quem realmente somos é que nos faz Bons; para sabermos quem realmente somos devemos conhecer nos mínimos detalhes aquilo que pensamos ser.
Se renovarmos esses momentos de autoconhecimento do que não somos, fazendo com que se tornem contínuos, poderemos vir a descobrir subitamente aquilo que realmente somos.
Mas o Bom Ser cenhece sua verdadeira posição em relação a todas as experiências e, desse modo, está em permanente estado de alerta. Está alerta ao que se possa crer, não crer, às coisas agradáveis e às desagradáveis, e essa vigilância não deve cessar, mesmo quando está imerso nos trabalhos e nos sofrimentos.
O "eu" que penso ser e o "eu" que realmente sou! Em outros termos, o sofrimento e o fim do sofrimento. Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de liberação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são "confeccionados em casa" e o universo os considera inteiramente supérfluos.
O patriotismo, a ciência, a religião, a arte, a política, a economia, o dever, a ação desinteressada e mesmo a contemplação (embora sublime), isoladamente não são suficientes. Nada é suficiente desde que o Todo seja deficiente".
Notas sobre o que é quê e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso
A ILHA - Aldous Huxley
Se apenas solbesse quem realmente sou, deixaria de proceder como penso que sou. E se parasse de me comportar como penso ser, saberia quem sou.
O sim e o não viveriam reconciliados na abençoada aceitação da experiência de Ser Único. A aspiração de todas as religiões de eternizar somente o "sim" em cada par de opostos é irrealizável porque contraria a natureza das coisas.
Conflitos e frustrações - tema de toda história e de quase toda biografia.
"Eu lhes mostro o sofrimento", disse Buda, realisticamente. Porém ele também mostrou o fim do sofrimento - o autoconhecimento, a aceitação total e a abençoada experiência de Ser Único.
O perfeito autoconhecimento gera o Bom Ser, e os Bons Seres realizam uma melhor espécie de Bem. Mas as coisas bem feitas não produzem automaticamente o Bom Ser. Podemos ser virtuosos sem que saibamos quem realmente somos. Os indivíduos apenas bons não são necessariamente Bons Seres; são simples pilares da sociedade.
O verdadeiro conhecimento de quem realmente somos é que nos faz Bons; para sabermos quem realmente somos devemos conhecer nos mínimos detalhes aquilo que pensamos ser.
Se renovarmos esses momentos de autoconhecimento do que não somos, fazendo com que se tornem contínuos, poderemos vir a descobrir subitamente aquilo que realmente somos.
Mas o Bom Ser cenhece sua verdadeira posição em relação a todas as experiências e, desse modo, está em permanente estado de alerta. Está alerta ao que se possa crer, não crer, às coisas agradáveis e às desagradáveis, e essa vigilância não deve cessar, mesmo quando está imerso nos trabalhos e nos sofrimentos.
O "eu" que penso ser e o "eu" que realmente sou! Em outros termos, o sofrimento e o fim do sofrimento. Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de liberação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são "confeccionados em casa" e o universo os considera inteiramente supérfluos.
O patriotismo, a ciência, a religião, a arte, a política, a economia, o dever, a ação desinteressada e mesmo a contemplação (embora sublime), isoladamente não são suficientes. Nada é suficiente desde que o Todo seja deficiente".
Notas sobre o que é quê e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso
A ILHA - Aldous Huxley
Assinar:
Postagens (Atom)