segunda-feira, 30 de julho de 2007

O Men ino d e Ges so


A Janela está aberta, não completamente devassada, um pequeno filamento do vidro ainda aparece quase transparente, não fosse o fosco da sujeira produzida por uma espécie de barro seco.
A mão segura com uma força um tanto quanto maior que a de costume a maçaneta giratória e caso seja feito o movimento para cima fechará o vidro da janela. Nota-se também uma certa tensão tanto na pressão da mão na maçaneta como no olhar que dirige ao menino que está no farol.Os olhos do menino encontram seu olhar, no meio de olhares curiosos, medrosos, resignados, tristes, indiferentes, inquietos que vem dos motoristas e passageiros dos outros carros parados no sinal vermelho, o mira diretamente e vem decidido na direção do seu carro.
De súbito PARA. Arregala os olhos. O homem no carro arregala os seus ainda mais, esbugalha-os. Há neste momento um terror na forma como, sem mexer a cabeça para não perder o menino de vista, gira a maçaneta o mais rápido que pode. O vidro fecha-se em segundos. O menino continua parado.
Incentivados pelo homem, sem saber muito o por quê, todos os outros carros imitam o movimento e também fecham seus vidros, alguns conferem se as trancas das portas estão ativadas, todos ficam apreensivos. O menino continua parado. O sinal abre. Os carros da frente partem, o carro do homem é o quinto da fila, mas a primeira marcha no câmbio já está engatada. O menino continua parado na fila do meio e o carro que está a sua frente dá pequenos arranques, na tentativa de assustar o menino e fazê-lo sair da frente.
O menino parece uma estátua, não mexe um músculo, olha para o homem que agora olha o carro da frente andar e microscopicamente mais aliviado pisa no acelerador. Antes de dobrar a esquina ainda consegue ver o menino já na calçada após desviar do carro que quase o atropela na ânsia de sair daquela situação de gesso.
O medo, o receio, pode causar uma momentânea desorientação em quem os sente. E o homem acabara de sentir os dois, medo e receio. Teve a chamada desorientação momentânea e virou a primeira rua que viu, saindo da sua trajetória previamente traçada. O medo e o receio podem causar também a aceleração do batimento cardíaco, a adrenalina circula no sangue em bombeadas ligeiras, precisas, deixa a atenção em supremo alerta, a temperatura do corpo aumenta. O homem teve todas as sensações e algumas outras ainda indizíveis, de ordem psíquica. Precisa de vento no rosto a abre a janela com a mesma agilidade que há poucos minutos a fechara, ficando apenas um filamento do vidro fosco com o tipo de barro seco.
O homem agora vai se acalmando e percebe que não sabe mais onde está, tamanha a quantidade de vezes que virou em ruas desconhecidas ao seu usual itinerário, mas decididamente está mais relaxado. Tenta achar um ponto de referência, uma rua que conheça para se reorientar e conseguir chegar ao seu destino. Segue o fluxo de carros e acaba saindo numa avenida grande onde pede informação num posto de gasolina a um frentista muito simpático e sorridente, que lhe dá não uma, mas três formas, três caminhos diferentes que o farão chegar onde quer.
Segue a segunda opção da instrução passada e em dois quarteirões já se localiza, volta a ter o controle da sua direção. A questão é que o farol na próxima esquina fica amarelo. Os carros da frente vão parando. O farol fica vermelho. Os carros vão parando enfileirados e seu carro é o sexto da fila. Sua mão volta para a maçaneta giratória. Seu olhar encontra um menino, que paralisado olha bem nos olhos de um senhor num carro logo à frente.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

P á no Mi lho


O homem está em pé, uma pequena maleta na mão,
segura-se como pode nos ferros do vão livre.
Seu rosto está corado, com um rubor de intenso sangue
mas de difícil penetração, uma vez que só olhos bem atentos
podem notar a vermelhidão que sobressai ao natural e entrega.
Olha a mulher de chinelos com muitas sacolas penduradas nos braços,
pequenos embrulhos com papéis de cores vivas, laços grandes em volta.
Equilibra-se bem na sua frente com o sacolejar do ônibus afoito,
com suas paradas e partidas, pontos sendo seus destinos momentâneos,
um a um, passageiros entrando e saindo, uns ficando mais que outros.
A mulher de chinelos e despenteada segura uma tigela de plástico
com grãos de milho em seu interior,uma colher branca, também de plástico,
serve de pequena pá entre a tigela e a boca,
pois essa é sua impressão, que a mulher não come o milho,
mas tenta enterrar o próprio estômago.