sábado, 13 de junho de 2009

Trin Tae do isdi as

Contados assim na folha do calendário que ficava grudado num íman na geladeira, já eram trinta e dois os dias em que não saía de casa; nem sequer à porta ia, quer dizer, até abria a porta mas não saía.
Não tratava-se de nem um tipo de fobia, destas que o sujeito sente-se inseguro e deslocado em ambientes abertos, nem tampouco a ultrapassada síndrome do pânico, nada disso. Apenas foi ficando em casa, e agora espantado, notava sua ausência física no mundo. Física porque continuava vivendo, fazia as compras de alimentos, material de limpeza e todo o resto através da internet, conversava com parentes e amigos via MSN e telefone; não sentia-se só.
Seu mirrado dinheiro provinha de microinvestimentos na bolsa de valores que também eram administrados pelo computador. Metade do tempo dormia, quase não comia e pensava demais; talvez por isso não notara o tempo passar. Também sonhava demais, mas nunca lembrava-se ao acordar.
Sentia sim falta de uma namorada, mas nada que o atormentasse muito, ademais mantinha relações virtuais com inúmeras mulheres em todos os cantos do país, só não do mundo pois não falava outras línguas.
O frio nos últimos dias era intenso, não gostava de sentir-se gelado, o frio deixava-o tenso; mais um motivo para não sair, na verdade, aparentemente o único motivo para não sair, pois não encontrava outro que justificasse sua reclusão.
Por fim, resolveu que deveria sair, como aconselhava seus amigos, arejar, espairecer, caminhar, ver gente ao vivo, observar os transeuntes relacionarem -se, relacionar-se com os transeuntes, levar a vida, ver o trânsito, enfim, sentir-se fazendo parte da sociedade.

Foi o que fez. Na manhã do 33° dia em casa, deixou a clausura e saiu. Caminhou todo o dia e após voltar para casa de noite sentia-se extasiado e feliz. Dormiu.
Um mês depois, ao mudar a folha do calendário notou que já eram trinta e dois os dias que não saía de casa.