sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O suic ídio da ab elha

I
Segurava o martelo com uma concentração sobrenatural. O quarto estava sujo e com restos de comida pelos cantos. Ambiente propício para estas criaturas. Estas e outras menores e mais repugnantes, lugar onde Gregor, de Kafka, sentiria-se em casa e bem ambientado.
O cheiro do quarto era irreconhecível, no entanto único, uma mistura azeda em que não era possível distinguir, nem definir a procedência exata, podendo ser de algo estragado, de bitucas de cigarro, de roupas que por não serem lavadas há tempos fediam um tipo de suor coagulado ou de tudo isso. Partes meladas por vinho derramado e nunca limpas faziam grudar as coisas que ali tocavam.
Enquanto mirava a abelha na parede um pensamento lhe saltou à cabeça – destino cruel desta criatura. Mas quem mandou entrar no meu quarto sem ser convidada? Ponderou em seguida – se bem que ela não pode pensar assim, na verdade acho que ela não pode se quer pensar.
Então pensou, pensou – pois ele sim podia pensar – e decidido chegou a uma conclusão – para ser justo faço o seguinte: vou fechar os olhos e soltar o martelo em sua direção. Se acertar estará fadada à morte, mas uma morte rápida, sem dor, esmagadora e fria, sem culpas. Agora se errar você estará condenada à liberdade e poderá viver neste quarto se assim o quiser e for de sua vontade, se é que uma abelha tem vontades. Desta forma pareceu achar uma resposta para justificar o pequeno assassinato que talvez cometeria. Sentia-se justo e limpo agora.



II

Visualizou a abelha com os olhos fixos, mirando sobretudo o seu ferrão, cheio de veneno e pontiagudo. As pálpebras fecharam-se, esperava o momento exato, muita atenção, alguma tensão espalhando-se pelo braço, culminando no momento máximo com a pressão exercida pela mão e dedos no cabo do martelo e zupt!
Atingiu fortemente a parede fazendo um grande barulho e um tremendo buraco no local atingido, a uns dez centímetros da abelha.
Ao abrir os olhos, ansioso e na expectativa de saber o destino do pequeno animal, ainda pode vê-la levantando vôo, cruzando todo o quarto e pousando num emaranhado de papéis amassados em cima da mesa de cabeceira, do lado da cama, um pouco abaixo da janela.
De fato a abelha estava livre da morte, pelo menos naquele momento. O máximo que lhe aconteceu foi levar um enorme susto quando o martelo atingiu a parede, se bem que - pensou ele - uma abelha jamais se assustaria com a batida de um martelo na parede, acho que nem mesmo se visse um fantasma se assustaria. Abelhas não se assustam.
O fato é que ela estava a salvo e para fazer jus ao que pensara, pegou o papel amassado cuidadosamente e levou-o para fora da janela, levantando-o na altura do rosto; antes de soprá-la para fora disse - meu erro com o martelo te destinou à vida. Está livre. Por esta você passou; vá, se quiser voltar será bem vinda.
A abelha saiu voando rumo à folhagem, passando pela varanda e pousando no portão de entrada da casa. De repente uma pontada de remorso o acometeu, pois tinha soprado a abelha para fora. Pensou - e se ela achar que a expulsei, que quebrei o trato, que sou um farsante? Mas será que uma abelha pode achar alguma coisa? Não. - tranquilizou-se.

III
(Continua...)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

At é ama n hã

Um piano de calda todo preto ao fundo, um violino em repouso na cadeira de veludo azul ao lado, mais seis cadeiras do mesmo tipo e cor paralelas, que mais tarde serão ocupadas pelo contra baixista, o violão celista, o flautista e demais músicos que compõem a pequena orquestra. Apenas uma atriz e o técnico de som chegaram, a atriz se troca no camarim, o técnico de som liga o equipamento. Poucas luzes estão acesas no teatro, sendo dois refletores em pino no palco, a luz verde que cobre o espaço dos músicos e as pequenas luzes de sinalização nos pisos dos corredores de acesso à saída, com as poltronas vazias da platéia no escuro.
Agora a primeira atriz ,que já chegou, se aquece e faz alongamentos dando piruetas e arrastando-se no chão, dando pequenos arranques de respiração e emitindo sons com a boca, grunhidos e princípios de gritos abafados. O equipamento de som começa a ser testado e equalizado, tocando bem alto a música de alguma ópera, com uma soprano e um tenor explodindo todos os seus graves e agudos.
De súbito o som para. O técnico avalia estar adequado acusticamente. Um breve silêncio se faz. Passos em direção ao piano. O primeiro músico que chega acomoda-se. Inicia as primeiras notas. É um exercício de voz para a atriz, que agora está em pé ao lado do piano de calda todo preto. O pianista toca notas ascendentes e descendentes que são logo acompanhadas pela voz da atriz que, aparentemente, atinge todas e as mesmas notas tocadas.
Daqui para frente, o teatro será calmamente preenchido por atores que chegarão, luzes que se acenderão, para depois serem apagas, e voltar a se acenderem, instrumentos que serão tocados, o público que virá assistir, ou à falta dele, as faxineiras que limparão toda a sala antes da apresentação, o diretor da peça que ainda dará muitas instruções ao elenco e diversas outras atividades que certamente ocorrerão até a apresentação, e durante toda a sessão, e depois dela também, das vivências que serão impressas na memória, das conversas que serão jogadas fora, outras acolhidas e bem guardadas, de tudo o que acontecerá até a última pessoa sair do teatro e com as luzes apagadas e o ambiente remexido por tudo quanto houve a porta ser trancada e o silêncio reinar triunfante.
Apenas o piano de calda todo preto terá permanecido todo o tempo no mesmo lugar, e agora também em completo silêncio. Bom, pelo menos até amanhã.