Um piano de calda todo preto ao fundo, um violino em repouso na cadeira de veludo azul ao lado, mais seis cadeiras do mesmo tipo e cor paralelas, que mais tarde serão ocupadas pelo contra baixista, o violão celista, o flautista e demais músicos que compõem a pequena orquestra. Apenas uma atriz e o técnico de som chegaram, a atriz se troca no camarim, o técnico de som liga o equipamento. Poucas luzes estão acesas no teatro, sendo dois refletores em pino no palco, a luz verde que cobre o espaço dos músicos e as pequenas luzes de sinalização nos pisos dos corredores de acesso à saída, com as poltronas vazias da platéia no escuro.
Agora a primeira atriz ,que já chegou, se aquece e faz alongamentos dando piruetas e arrastando-se no chão, dando pequenos arranques de respiração e emitindo sons com a boca, grunhidos e princípios de gritos abafados. O equipamento de som começa a ser testado e equalizado, tocando bem alto a música de alguma ópera, com uma soprano e um tenor explodindo todos os seus graves e agudos.
De súbito o som para. O técnico avalia estar adequado acusticamente. Um breve silêncio se faz. Passos em direção ao piano. O primeiro músico que chega acomoda-se. Inicia as primeiras notas. É um exercício de voz para a atriz, que agora está em pé ao lado do piano de calda todo preto. O pianista toca notas ascendentes e descendentes que são logo acompanhadas pela voz da atriz que, aparentemente, atinge todas e as mesmas notas tocadas.
Daqui para frente, o teatro será calmamente preenchido por atores que chegarão, luzes que se acenderão, para depois serem apagas, e voltar a se acenderem, instrumentos que serão tocados, o público que virá assistir, ou à falta dele, as faxineiras que limparão toda a sala antes da apresentação, o diretor da peça que ainda dará muitas instruções ao elenco e diversas outras atividades que certamente ocorrerão até a apresentação, e durante toda a sessão, e depois dela também, das vivências que serão impressas na memória, das conversas que serão jogadas fora, outras acolhidas e bem guardadas, de tudo o que acontecerá até a última pessoa sair do teatro e com as luzes apagadas e o ambiente remexido por tudo quanto houve a porta ser trancada e o silêncio reinar triunfante.
Apenas o piano de calda todo preto terá permanecido todo o tempo no mesmo lugar, e agora também em completo silêncio. Bom, pelo menos até amanhã.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
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