O telefone tocou a primeira vez sem que ele se quer movesse um músculo, nada, nem um dedo. No segundo toque foi o seu pensamento que esboçou uma primeira reação, uma leve sensação de desgosto, de irritação. O terceiro toque dava sinais que uma explosão se daria, se não externa, com toda a certeza de cunho interno, pessoal, íntimo. Mas antes do quarto toque seu pensamento irrompeu sem disfarce. Era a irritação que chegara, límpida, transfigurada na certeza de que não queria atender ao aparelho telefônico e não iria mesmo.
O quarto e o quinto toque se deram e dentro dele, ainda deitado e sem mover nenhuma minúscula parte do corpo, era como se a persistente pessoa que discara os números estivesse a ligar todo um dia, um dia inteiro, sem interrupção, já era essa a sua sensação. Estava de olhos fechados quando os toques começaram, mas no sexto toque fez força e fechou os olhos por dentro, ao avesso, o mesmo que fez com os ouvidos, como se os tímpanos se comprimissem até causar uma surdez profunda, sem começo nem fim. Tal movimento parece ter dado resultado pois não ouviu nem o sétimo, nem o oitavo, nem mais nenhum toque. Ao acordar na manhã seguinte não se lembrava de o telefone ter tocado e surpreso viu o aparelho espatifado num canto do quarto.
domingo, 4 de maio de 2008
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